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Reconceitualizando a interação

Como transformar pesquisa em soluções de design para o Orkut?

Amigos que não visitei ultimamente

Enquanto observo chegar os depoimentos da pesquisa sobre o Orkut, várias idéias me vêm à cabeça. As pessoas comentam várias características do sistema que impedem ou empoderam elas de fazer certas coisas que elas gostariam de fazer. Primeiro pensei: "nossa, essa pesquisa vai ser um prato cheio para o pessoal do Google porque eles poderão saber exatamente o que mudar no sistema". Pensei melhor e vi que não é tão simples assim.

O fato é que não se pode controlar o comportamento humano. Pode-se tentar induzir, mas o sucesso da indução dependerá da aceitação por parte de cada ser humano. Sendo assim, não basta que o Google mude isso ou aquilo no Orkut para que o comportamento das pessoas se torne como elas gostariam que fosse.

Muitas pessoas sugerem que o scrapbook seja privado, ou seja, só o dono possa vê-lo. No Orkut é comum outras pessoas (concorrentes) se valerem do espaço público (scrapbook) para deixar a pessoa (namorado) numa situação complicada em relação a uma terceira pessoa (namorada). O scrapbook privado impediria que a namorada visse, mas não impediria que ela ficasse com ciúmes. Poderia ser até pior. Imagino namoradas exigindo a senha de namorados e vice-e-versa para verificar se há recados comprometedores por ali.

Assim como numa relação amorosa é preciso aprender a lidar com o ciúmes negociando com o outro, no design de interação é preciso reconhecer o conflito entre as intenções das pessoas e os agenciamentos (capacidades de agir) do sistema. Esse conflito não acaba, mas transforma-se. Perceber e prever essa transformação é o métier do design de interação.

Há mais de um ano venho pensando num modelo que unifique esses dois aspectos do design de interação. No Domínio do Design de Interação montei um ciclo de retroalimentação entre pessoas e sistemas: as pessoas fazem coisas e os sistemas suportam o fazer, cada qual sendo alterado pelo outro simultaneamente. Nos Fundamentos para o design de interação, sobrepus ao diagrama as atividades projetuais de pesquisa e planejamento. A pesquisa trataria de descrever o que as pessoas fazem e o planejamento de prescrever o que eles devem fazer.

O problema é que, embora essas atividades pareçam integradas, na verdade o modelo enfatiza que elas aconteçam em fases distintas de um projeto. Também reforça aquela idéia de que falei no começo: basta pesquisar o comportamento para controlá-lo via planejamento do sistema. Mas o pior de tudo é o designer no centro e o usuário na ponta, como se o designer fosse o Deus todo-poderoso que pudesse controlar tudo aquilo e o usuário um mero dispositivo de entrada e saída...

Então lá vai minha nova tentativa de conceitualizar o Design de Interação:

Interação entre pessoas e sistemas

As manifestações das pessoas e dos sistemas se encontram na interface. A interface é uma área cinza que media a relação entre homem e máquina, relação esta caracterizada pelo conflito entre as intenções das pessoas e os agenciamentos (capacidades de ação) dos sistemas. Neste conflito, o poder é exclusivo das pessoas, já que os agenciamentos são dados por elas, mas quando uma pessoa se aproveita dos agenciamentos de um sistema, está a mercê do poder de quem deu tais agenciamentos ao sistema. Os sistemas, portanto, não têm poder, mas exercem o poder de outros no conflito. Sendo assim, os sistemas podem delinear as intenções das pessoas e as pessoas podem alterar os agenciamentos dos sistemas durante a interação.

Aqui dá pra notar nitidamente a diferença entre Design de Interface e Design de Interação. No primeiro, a questão central é a tradução dos agenciamentos do sistema em signos que as pessoas possam entender (minimizando, assim, o conflito), enquanto que no segundo, a questão são as múltiplas relações entre pessoas e os sistemas, sendo a dimensão semiótica parte de uma dimensão maior: a da ação humana mediada por artefatos, ou seja, a tal da interação. Quem se restringe ao Design de Interface, considera os sistemas sagrados, enquanto que quem se abre para o Design de Interação, desmistifica a caixa-preta e as relações conflituosas que a constituiram.

Posta a relação conflituosa de coconstituição entre pessoas e sistemas, o novo modelo pode ser usado tanto para descrever (pesquisar) quanto para prescrever (planejar) a interação entre pessoas e sistemas. Como exemplo, aplicarei sobre os resultados parciais da pesquisa sobre o Orkut.

Descrição

O Orkut oferece pouca adaptação automática de acordo com o comportamento das pessoas. Um dos poucos exemplos é a caixa "meus amigos" que aparece no canto direito da tela logo que se entra no sistema. Essa lista mostra os seus amigos que fizeram login por último.

Meus amigos no Orkut

Os participantes da pesquisa comentam que a curiosidade os impele a clicar na foto dos amigos para ver seu perfil. Alguns homens dizem que essa curiosidade está ligada à "boa estética" da foto, o que normalmente leva, em seguida, à uma espiada no álbum de fotos para verificar se a "boa estética" também se verifica sob outros ângulos. Entretanto, a maioria diz que a curiosidade é para saber como estão essas pessoas e o que estão fazendo ultimamente, "a mania de saber o que há com o vizinho", nas palavras de um participante.

O comportamento das pessoas entra em conflito com essa adaptação do sistema quando elas se perguntam porque estão aparecendo estas pessoas e não outras. A informação de que a ordem é determinada pela hora do login do amigo consta apenas na ajuda do sistema, sem conexão com a caixa. Na pesquisa ainda não foi citado, mas já ouvi algumas pessoas dizerem que se trata de uma sugestão automática do Orkut de pessoas que você talvez ache interessante visitar.

O fato é que essa funcionalidade acaba servindo como sugestão, mesmo que não tenha critérios para isso. Um amigo me disse que "agora que tem o Gtalk, quando vejo a foto de alguém, me lembro que tenho que falar alguma coisa com ela, aí abro o Gtalk e começo a conversa. Nem uso mais os recados".

Este ambiente dá suporte a diferentes atividades, mas é importante ressaltar que ele também induz a atividades como espiar os perfis ou convidar os amigos para uma festa. Se o ambiente fosse diferente, pode ser que algumas dessas atividades nem acontecessem.

No caso dos mulherengos de plantão, a atividade mais citada é admirar a beleza feminina. Ao clicar na foto miniatura, eles vão para o perfil da pessoa, mas o que eles querem ver antes são as fotos do álbum.

Perfil da Paty Boneca

A tarefa é verificar se a dona do perfil é isso tudo que aparece na foto miniatura. O fluxo do sistema, entretanto, não relaciona a foto do perfil com o álbum de fotos. Para entrar no álbum de fotos, é preciso clicar no link "5 fotos" que se encontra junto com outros elementos que nada tem a ver com essa tarefa.

Álbum da Paty BonecaPerfil da Paty Boneca

Depois de ver o álbum de fotos, é que os homens voltarão ao perfil. Uma das primeiras coisas que eles dizem observar é se a pessoa está namorando ou não.

Aqui a atividade pode mudar de admiração para aproximação, se o homem estiver interessado. Nesse caso, a próxima tarefa é ver se a mulher é inteligente. "Estou procurando uma namorada, se ela for bonita e inteligente tem pontos positivos cmg!", disse um participante. Perguntei a ele como ele verificava se a potencial namorada é inteligente, ao que ele respondeu:

No perfil da pessoa, as vezes ela escreve na aba "Profissional" o que faz,
no que é formada e tals...
As vezes a garota cria uma comunidade diferente,
algo que ela é a favor, e talvez seja interessante,
é por esses e tbm outros motivos que descubro
o grau de inteligencia de uma pessoa...!

Aqui novamente o fluxo do sistema entra em conflito com a tarefa da pessoa. Para descobrir quais são as comunidades que a garota criou e o que ela escreveu nelas, é preciso entrar uma por uma em todas as comunidades da pessoa.

Perfil da Paty Boneca

Esta garota, por exemplo, participa de uma comunidade chamada Homens que gostam de travestis, moderada por uma pesquisadora da UFSCAR.

Comunidade Homens que saem com travestis

Se o homem executando essa tarefa não gosta de travesti, possivelmente ficaria decepcionado em descobrir que a Paty Boneca é travesti, ou como a comunidade diz ser mais mais legal chamar, t-girl. Mas como é possível ter achado que a Paty não era uma t-girl?

Abaixo da foto do perfil dela, consta que ela é do sexo feminino e no perfil não há indicação de orientação sexual. Porque ela não forneceu esses dados? Talvez porque não tenha encontrado uma opção adequada no controle que o perfil oferece. Talvez porque não considere que tenha apenas uma orientação sexual. Talvez não quizesse ser rotulada pejorativamente de "gay" ou "bissexual". Não importa o motivo, o fato é que houve conflito entre a operação de indicar a orientação sexual e o controle oferecido.

Pergunta sobre orientação sexual no perfil

Todas essas questões levantadas poderiam ser tratadas nos quatro níveis propostos, mas por limitações de tempo utilizei um de cada vez.

Prescrição

Poderiam ser feitas muitas sugestões diferentes destas que vou dar para modificar o design do sistema, mas são estas as que consigo pensar a partir do modelo. Vamos pelo caminho inverso.

Poderiam haver outras opções de orientação sexual, assim como há com os estilo da personalidade. Lésbicas não são necessariamente "gays do sexo feminino" e algumas não gostam de serem chamadas assim. Além disso, essa pergunta conflita com a pergunta sobre o sexo, que se restringe a masculino ou feminino e é obrigatória. Poderia ser uma pergunta só:









Certamente essa pergunta geraria uma reflexão mais profunda sobre as possibilidades de opções sexuais na sociedade. Poderia contribuir para a relativização da determinação sexual biológica e das identidades fixas na cultura. O conflito no nível da operação poderia ter consequências no nível das tarefas, das atividades e mesmo dos comportamentos. As pessoas poderiam estar mais propensas a aceitar comportamentos antes considerados indevidos graças (em parte) à influência do controle do sistema.

Lá nas comunidades da pessoa, poderiam aparecer primeiro as que a pessoa modera e depois as que participa.

Comunidades da Paty Boneca

Isso não teria impacto só na tarefa de "verificar a inteligência da pessoa", mas em muitas outras possíveis. Alguém que não lembre o nome de uma comunidade, mas lembre do nome do moderador pode chegar à comunidade desta forma. Pode também influenciar a decisão de clicar na comunidade, pois trata-se de algo especial para a moderadora.

Outras tarefas que poderiam ser melhor suportadas com uma pequena mudança sãos as que incluem acesso direto ao àlbum de fotos. Um link +fotos ao lado da foto do perfil poderia ser um atalho útil que não adicionaria ruído ao layout, por ter relação com seus elementos de entorno.

Perfil da Paty Boneca

Uma estratégia alternativa seria gravar a última seção do perfil visualizada e mostrar a mesma seção em qualquer perfil dali pra frente visualizado. Assim seria possível ir pulando de álbum em álbum das pessoas que aparecessem nas listagens de amigos, por exemplo. Esta mudança na adaptação do sistema poderia mudar o comportamento das pessoas, no sentindo de ver menos o perfil das pessoas e mais o scrapbook, álbum de fotos e vídeos. A pergunta "quem sou", utilizada por muitas pessoas como quadro de avisos e boas vindas teria menos visibilidade.

Por último, a sugestão de amigos poderia ser com base no critério da data da última visita no perfil do amigo. Ali apareceriam os amigos que há tempos que você não vê. Uma seleção randômica dentre os "esquecidos" garantiria que não fossem repetidos sempre os mesmos.

Amigos que não visitei ultimamente

Esperança

Espero que esse modelo seja útil para outras pessoas além de mim mesmo. Até o momento me serve como espinha dorsal para uma série de outros conceitos relacionados à metodologia de design de interação dialética que estou procurando alcançar.

Quem preferir uma abordagem mais acadêmica, com melhor contextualização e referências bibliográficas de onde tirei essas idéias, veja o trabalho que apresentei para a disciplina Design e Cultura do Mestrado da UFPR. A pesquisa sobre o Orkut não terminou e virão novos trabalhos acadêmicos.


Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 27/05/2007

Palavras-chave

interação    pessoas    sistemas    conflito    contradição    dialética    orkut    

Opções



Comentários

Discussão
Cristian
27/05/07 às 19:35

Tu gostou da Paty em..rsrsrs..

Excelente Tópico!


Discussão
Vinicius Ruoso
27/05/07 às 23:24

E aew fred bleza??

Muito show sua matéria...

Realmente o orkut peca em alguns pontos, mas mesmo assim é muito utilizado. Mas não sei por qual motivo, os brasileiros são maioria por lá, o que será que causa isso?

(obs.: minha foto está ali? q comédia ) hauiehiauehaheahea

abraços


Discussão
Frederick van Amstel
27/05/07 às 23:40

Essa pergunta é difícil de responder com precisão Vinicius.

Certamente o Orkut é muito utilizado no Brasil porque dá um bom suporte para o que as pessoas por aqui gostam de fazer: espiar a vida alheia, conhecer novas pessoas, expor sua personalidade, autoafirmar-se e etc.

Agora por que o Orkut e não o Friendster, é uma outra questão que vem no bojo. Acredito que seja pelo tom informal dos textos e gráficos do Orkut, em contraste com a seriedade do Friendster.


Discussão
Paty Boneca
29/05/07 às 16:38

Pq você colocou o meu perfil nesse seu site hein Fredy??


Discussão
Paty Boneca
29/05/07 às 16:41

Pq você colocou o meu perfil nesse seu site hein Fredy??
Hehehe
Brincadeiras a parte...
Muito bom teu site, parabéns.
Só dá uma cosertada no "quizesse" troca o 'z' por 's'.
Abraço




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