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A forma não segue necessariamente a função

O velho bordão do design já não satisfaz mais.

garfos_diversos.jpg

Na linha funcionalista do Design, que é muito influente no Brasil, acredita-se que a forma de um objeto projetado segue a sua função. Seguindo essa idéia, o garfo de quatro dentes é assim porque esta forma é a que ofereceu a melhor performance para a função de espetar alimentos e levar à boca, dentre todas as outras que foram projetadas até hoje. Ao rever a história do garfo, podemos perceber que a performance não foi o único critério para sua evolução.

Na Europa da Idade Média, usar garfos artificiais ao invés dos garfos naturais ­— os dedos — era considerado um insulto ao Criador. Garfos eram utilizados apenas como utensílios de cozinha. No século XVI, os italianos passaram a utilizá-los na mesa, mas com dentes menores, para diferenciá-lo dos garfos de cozinha. A cozinha era o lugar dos serviçais, que comiam com a mão, e não dos nobres.

No século XIX, a sofisticação da burguesia era tamanha, que os jogos de talheres incluíam dezenas de peças especializadas, dentre as quais, haviam pelo menos quatro garfos diferentes. Nem todas as peças especializadas eram mais úteis, mas seu uso num jantar demarcava o status social dos anfitriões.

No século XX, o consumo de massa levou à padronização das peças básicas dos jogos de talheres. No final do século, com o aumento da competição entre fabricantes, alguns faqueiros começaram a sair de fábrica ligeiramente fora do padrão, exibindo detalhes de acordo com um estilo ao qual um determinado perfil de consumidores procuraria se alinhar. Em alguns faqueiros, os garfos são tão arredondados e curtos que mal servem para espetar o alimento, função que o diferencia da colher.

A colher pode ser até mais efetiva para comer a comida processada feita para as refeições rápidas da rotina agitada do século XXI, mas a preocupação com a manutenção do estilo ainda existe, mesmo na correria. O garfo e a faca ainda são os utensílios básicos da mesa, enquanto a colher é relegada às crianças e aos alimentos predominantemente líquidos.

A história do garfo demonstra que não há uma relação determinante da função sobre a forma. Henry Petroski conclui no livro The Evolution of Useful Things que a única coisa determinante sobre a forma é a frustração com o que já existe. O desejo de ter algo melhor é o que motiva a invenção de novas formas e não necessidades pré-existentes. O garfo era absolutamente desnecessário enquanto as mãos e facas pontiagudas cumpriam a função de levar o alimento à boca; a necessidade já estava sendo atendida. Entretanto, o desejo pela distinção social levou à utilização dos garfos na mesa.

A forma é, portanto, delineada por uma multiplicidade de fatores difíceis de serem tracejados fora de contexto. Novos modelos surgem por mudanças nas condições de uso, nos padrões de comportamento social e nas tendências de estilos. Um bom design deve seguir tais mudanças e não ficar preso a um ideal de performance ótima para uma função específica. Os melhores designs encantam, os medíocres funcionam.

Publicado originalmente na Revista Design do site da Tramontina Design Collection.

Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 21/05/2007

Palavras-chave

forma    função    história    

Opções



Comentários

Discussão
Emanuel Santana
22/05/07 às 00:04

O desejo não seria mais uma das funções para ser satisfeita através da forma?


Discussão
Frederick van Amstel
22/05/07 às 01:59

Todo desejo é orientado a um objeto, seja ele uma coisa concreta ou uma idéia. Qualquer objeto pode ser analisado a partir das categorias forma X conteúdo ou forma X função. Entretanto, numa análise parcial se perde a relação indissociável entre essas duas categorias: forma não existe sem função; função não existe sem forma e as duas se constituem mutuamente.

O problema de "funcionalizar" a forma é que leva à ilusão de que se pode controlar a função através da forma. O designer projeta uma forma para cumprir a função de satisfazer o desejo de outrem. Parte-se do princípio de que a função do objeto deve ser definida previamente pelo designer.

Isso é ilusório porque o mais comum é as pessoas encontrarem funções para os objetos que seus designers nunca imaginaram!

Poderia questionar também a própria noção de função, pois esta implica na inserção do objeto num determinado sistema de reprodução social. Quando o objeto não reproduz esse sistema, então ele tem uma disfunção.

Eu vejo objetos que não tem funções nem disfunções, mas sim outras relações com a sociedade.

Qual a função da Wikipedia? Fornecer conteúdo útil ao usuário? Servir de passatempo para intelectuais desocupados? Questionar as autoridades da elite intelectual representadas pela emblemática Enciclopédia Britânica? Opa, nesse caso já seria uma disfunção.

Prefiro pensar a Wikipedia não como um instrumento para um fim, mas como um espaço mediador de interações entre pessoas. Pra mim, as pessoas estão conversando, discutindo, aprendendo e pensando com a mediação da Wikipedia.

Pode ser que alguém acesse a Wikipedia com um fim bem específico: obter informações para o trabalho escolar. Entretanto, no percurso a pessoa pode descobrir algo novo, pode desviar-se do seu caminho, pode encontrar pessoas e envolver-se com elas.

O filósofo Jürgen Habermas diz que esse agir-racional-com-respeito-a-fins não é o único modo de ação humana. Pode ser a predominante na sociedade atual, mas há que se ressaltar que cresce o que ele chama de ação comunicativa: a interação entre pessoas visando o consenso.

A Wikipedia é um bom exemplo de ação comunicativa. Se analisarmos a Wikipedia só a partir das categorias forma X função estaremos perdendo sua verdadeira riqueza: as mediações que ela proporciona. Tais mediações não são intrínsecas ao objeto, ou seja, não estão dentro dele. Existem algumas regras de participação que vão restringir a mediação, mas essas regras podem ser reconceitualizadas ou mesmo subvertidas pelas pessoas diante de contextos distintos.


Discussão
Perroud
22/05/07 às 04:07

Oi Fred,
Funcionalidade (proposta inicial) subvertida a partir de contextos distintos criando multifuncionalidade? Isto ainda segue o conceito "a forma segue a função". Lembra-se da famosa cadeira criada na ULM? :P (você deve ter ido na exposição da Andrade Muricy)
Muitas vezes, minimalismo inteligente nos leva a criação de pro(ob)jetos atraentes sem cair na mediocridade. Mas é um equilíbrio difícil de praticar.

http://www.artlebedev.com/everything/optimus/

Subverter é maravilhoso quando respeitamos a sua função e forma. Vide este link acima.


Discussão
Vilson Martins Filho
22/05/07 às 09:59

Fred.

Você deve tomar cuidado com conclusões meramente filosóficas.

Vejo que seria extremamente proveitoso que você cursasse uma graduação em design industrial com foco bem "Ulminiano".

Execute todas as etapas de um projeto de produto, aplique uma metodologia concreta e objetivos bem delineados para que as funções de um objeto industrial fiquem bem definidas para você.

Achei um absurdo o texto afirmar que a "evolução" do garfo pode ser sinônimo de design. Se pensarmos em design, os hashis são muito melhor resolvidos que os talheres ocidentais. (inclusive mais "verdes")

Hoje viviemos a era do "emotion design", onde um objeto que simplemente cumpre sua tarefa essencial não se torna sucesso de mercado.

Mas seriam esses produtos realmente necessários?

Sucesso de mercado significa bom design?

Seria a função simbólica mais importante que a função de uso? Seria a função estética que define a função simbólica?

Definindo bem os Aspectos Funcionais, Simbólicos e Estéticos de um produto, você entende melhor o que Louis Sullivan quiz dizer com "A Forma segue a Função"


Discussão
Frederick van Amstel
22/05/07 às 13:48

"A forma segue a função" é uma teoria e estou refutando ela, bem como apresentando uma outra teoria.

O exemplo dos hashis é dado pelo Henry Petroski para sustentar que a forma não segue a função. Se a função dos talheres ou hashis é levar comida à boca, então porque eles tem formas tão diferentes? Se a forma seguisse a função, então as duas soluções teriam que ser iguais, já que a função é a mesma.

Em momento algum disse que a evolução dos talheres é design. Considero que são projetos, mas não com as características da prática atual de design. Entretanto, os defensores da "forma segue a função" usam exemplos de projetos que não são classificados como design, logo esse conceito deveria também ser aplicável a tais projetos, o que não se verifica nos exemplos que apresentei.

Como disse no comentário anterior, prefiro não pensar os objetos do mundo como tendo necessariamente funções sociais.

Função estética é algo que não consigo engolir. Em contraponto ao exemplo subversivo do Perroud, temos este onde crescem brotos de trevo:

http://gizmodo.com/archives/organic-computing-020727.php

Qual a função do teclado agora que não dá mais pra digitar? Qual a utilidade dos brotos de trevo? Fazer você pensar sobre seus hábitos de trabalho? O autor do projeto pode ter tentando expressar outra coisa e você pode ter percebido outra coisa ainda diferente.

O grande lance da estética é que cada um tem um gosto individual e interage com o objeto de diferentes maneiras. Não dá pra dizer que isso é uma coisa útil, a não ser que se veja a sociedade como um sistema, o corpo humano como uma máquina e a função social da estética como catarse para os impulsos subversivos nos indivíduos que ameaçam a estabilidade do sistema.

Eu sou um humanista e prefiro pensar os homens como seres que vivem nas algruras da contradição. Não há um sistema resolvido. A realidade é múltipla e diversificada.


Discussão
Perroud
22/05/07 às 22:06

"Função estética é algo que não consigo engolir."

Então você diria que bem-estar, a pura estesia, você não consegue engolir também? Ou você ainda acredita que estética = beleza? ;)


Discussão
Frederick van Amstel
23/05/07 às 12:15

O que quero dizer é que a estética não tem uma função social.

Vejo a estética como um aspecto da experiência humana que está ligada ao gosto coletivo e individual, aos julgamentos de valor, às sensações e às emoções.

Não dá pra dizer que essas coisas desempenham funções na sociedade, pois, do contrário, estética seria apenas reafirmação do estabelecido, ou seja, o que é considerado belo para a sociedade.

A estética também inclui o feio, o ameaçador, o incomum. As obras revolucionárias frequentemente são consideradas horrendas para a sociedade em que é primeiramente apresentada, mas a inquietação pode levar a uma apreciação por um outro ângulo, mudando a noção de gosto estabelecido.


Discussão
Rodrigo Santiago
25/05/07 às 20:11

É uma justificativa relevante e Interessante. mas poderia ser "A forma NEM SEMPRE segue a função". Em muitos casos a forma está de acordo com a função, diferente, talvez desse caso dos talheres.

Mas uma observação bem bacana.

Um abraço!


Discussão
Hugo Cristo
30/05/07 às 00:40

"O que quero dizer é que a estética não tem uma função social."

Fred, acho que você não quis dizer isso, não desse jeito, especialmente porque você está sugerindo que sua visão é humanista.

A estética é uma área da filosofia encarregada, principalmente, de três coisas:

1) investigar os julgamentos de valor que fazemos sobre as sensações provocadas por alguma coisa (a estética em si);

2) investigar o fenômeno estético (a percepção);

3) o estudo da arte quanto ao que é percebido como 'estético' (e aí até pode entrar o tal belo).

Na minha cabeça, e posso (e gosto da idéia de) estar errado, dizer que a estética não tem 'função social' é a mesma coisa quer dizer que perceber, julgar o percebido e buscar compreender os produtos que surgem a partir dos julgamentos sobre o entorno percebido (arte?) não têm função social.

Existe uma crítica muito vazia e pouco criteriosa sobre os funcionalistas, como se eles não estivessem preocupados com a estética. Essa crítica é, antes de mais nada, estética, pois tenta avaliar a superficialidade dos produtos de um período histórico sem considerar o contexto. É um julgamento de valor, filosoficamente válido, e ponto final. Como designers e pesquisadores não podemos enxergar isso de forma tão simplista, especialmente porque essa crítica reduz a idéia de função apenas à dimensão PRÁTICA.

A sugestão do Vilson em relação à graduação Ulmiana procede, justamente porque o funcionalismo não é uma regra de três que define que a coisa é bela porque funciona, mas ao contrário: a beleza (o que era considerado estético) estaria ligada à funcionalidade, algo como desempenhar bem uma função ser bonito. Isso existe em todos os lugares ainda, da engenharia civil ao projeto de uma turbina, onde a estética ideal é a estética do que funciona.
Não esqueça que os contemporâneos europeus do Sullivan e Lloyd Wright defendiam a estetização dos produtos industriais.

O trinômio função simbólica-estética-prática, lá do Lobach nos anos 60, não é piada. É uma proposta muito bacana que abriu espaço para os emotional designs de hoje. Ele foi um dos pioneiros a levantar a bola de que grande parte das funções sociais dos produtos design são definidas longe da prancheta, no cotidiano de quem usa. Todo mundo já sabia disso, até os funcionalistas, só que não havia o mercado de consumo como motor da brincadeira.

O funcionalismo é um produto social, assim como a sua estética: ele responde a um contexto particular de necessidades de produtos baratos, econômicos e seriados, principalmente na virada do século e nos entre-guerras. A situação de não ter uma panela muda consideravalmente a percepção estética sobre as panelas em geral, que podem ser simples, lisas, "frias", desde que existam.

Sobre os palitinhos japoneses, eu só posso dizer que não sei nada sobre o Henry Petroski, a não ser que discordo dele em gênero, número e grau. Os hashis obviamente possuem uma forma que segue a função, mas essa função não é apenas PRÁTICA. Comer é um comportamento social, definido historicamente, relativo a um arranjo complexo de opções alimentares, técnicas de estocagem, cozimento e formalidades das cerimônias onde se come. É impossível pensar que os palitinhos, como resposta milenar a esse contexto, não sejam 1) design e 2) uma forma que responde a uma função. Isso parece, novamente, um julgamento estético do sr. Petroski, mas não posso afirmar nada pois não conheço o trabalho dele.

"Se a forma seguisse a função, então as duas soluções teriam que ser iguais, já que a função é a mesma".

O problema da sua afirmação é que ela restringe função à dimensão utilitária do objeto. A função prática (levar alimento até a boca) é a mesma, mas o alimento é outro, a boca é outra, a quantidade de alimento que pode ir até a boca é outra, o tempo que isso pode levar é outro... É só você comparar a arquitetura moderna européia e brasileira. Há elementos práticos comuns, mas a influência do contexto gerou questões estéticas e simbólicas distintas.

Pensando nisso tudo, e chamando o bom e velho Gui Bonsiepe para a discussão, insisto na idéia de que você não quis dizer que a estética não tem função social nenhuma. GB sugeriu que o espaço de ação do design é primordialmente retinal, embora não se restrinja a ele, mas por quê? Pelo simples fato de que por meio da forma percebida de um objeto, fazemos uma série de julgamentos (estéticos) que nos permitem localizar aquela coisa no mundo onde vivemos, reconhecendo todas as suas funções.

O que é a etiqueta? É uma atitude estética em relação a alguns artefatos que nos cercam.
http://www.sulcom.com.br/e/etiqueta_regras_basicas.shtml

Abraços!


Discussão
Frederick van Amstel
02/06/07 às 15:35

Hugo, a função do Petroski está ligada à performance utilitária do objeto. Ele está dizendo que a performance não é único fator determinante sobre a forma do objeto. Claro que podemos utilizar o termo função de forma mais abrangente como você citou, a tal função social, que não estaria dentro do produto e seria observável somente quando o produto está em uso.

Entretanto, assumir que o produto desempenha necessariamente uma função social implica na visão funcionalista da sociedade: artefatos e pessoas desempenhando funções para a manutenção do corpo social.

O problema de submeter a estética à categoria de função social é que a torna uma mera medida estática do senso-comum. Nessa visão, a função estética de um artefato se resumiria à adequação ao gosto estabelecido. Caso o artefato não se adeque ao gosto, então ele desempenha um disfunção no corpo social que deve ser tratada com as medidas repressivas ou excludentes cabíveis.

Prefiro considerar bem-vindas as propostas de atualização do gosto no campo da estética. Também gosto da idéia de que nem tudo precisa ter uma função prática.

O Anthony Dunne e a Fiona Rabby lá do Royal College of Art of London propõem que os objetos de design podem ser mais do que utilitários; eles podem nos fazer pensar e reconfigurar nossa própria identidade,nossa relação com a tecnologia e com a sociedade, nossas visões de mundo e etc.

No livro Hertzian Tales, o Dunne propõe a Para-funcionalidade, ou a Estética do Uso. Trata-se de uma subversão da função dos objetos para criar efeitos poéticos.

Alguns exemplos:
http://webzone.k3.mah.se/kit03023/parafunc.html
http://piede.wordpress.com/2006/10/31/excuse-me-have-you-a-conversation-starting-jacket/
http://criticaldesign.wordpress.com/


Discussão
José Pirauá
02/06/07 às 21:38

Antes de mais nada, gostaria de dizer que a discussão está muito interessante!

Em relação ao texto, concordo que a forma não segue necessariamente a função. Acho que ignorar a função (papel) social da estética não é coerente. A noção que temos das formas (beleza, feiúra etc) tem grande influência social (cultural) na constituição do gosto individual. Isso influência num segundo momento nossa consideração sobre nós mesmos, isto é, nossa auto-estima. A estética está intimamente relacionada com o prazer (ou a previsão do prazer), e este, por sua vez, é bastante dependente do meio social, afinal somos seres gregários, ou seja, dependemos dos nosos semelhantes para nos sentirmos bem. A estética, então, não ameaça a sociedade, sua função social é de regulação, de ajuste, de atualização.

A aplicação da estética ao design não precisa se restringir à "adequação ao gosto estabelecido". Existem basicamente dois caminhos a serem percorridos: ou se opta por menos insegurança e se segue o estabelecido (que não dura pra sempre); ou se corre o risco de fazer algo inovador (que pode virar uma nova tendência).


Discussão
Frederick van Amstel
02/06/07 às 23:07

Pirauá, o fato da estética ser construída socialmente não implica em desempenhar uma função.

Se a forma não segue necessariamente a função, então eu diria que, no design, a forma sempre segue a estética (dentre outros fatores), mas uma estética relativa ao gosto individual e coletivo das pessoas. Estes estão mudando constantemente através do conflito de valores, tanto na esfera individual quanto na coletiva. O conflito não pode ser considerado uma função social; pelo contrário, na teoria funcionalista expressada pela metáfora do corpo social, o conflito é uma doença, um desequilíbrio indesejável que deve ser curado.

Gosto de pensar a estética como a expressão do homem dual, criado e vivendo pelas contradições. A beleza estaria justamente nesse fascinante arranjo de multi-determinações conflituosas.

Um exemplo que explicita essa visão no campo da literatura é a obra O Médico e o Monstro, de Robert Stevenson. A beleza do romance está justamente no confronto entre o homem civilizado e o homem animal que cohabitam o corpo do pobre médico Henry Jeckel.

O Dunne e a Rabby propõem um projeto chamado Complicated Pleasures aos seus alunos que visa explorar justamente essas questões. Dêem uma olhada nos projetos criados:

http://www.interaction.rca.ac.uk/briefs/complicatedPleasures.html

Escrevi uma resenha numa disciplina sobre Estética que pode esclarecer a origem do meu ponto de vista:

http://www.usabilidoido.com.br/a_filosofia_do_iluminismo.html


Discussão
Hugo Cristo
03/06/07 às 17:28

Fred,

Qual a vantagem de observar a função de um objeto quando ele não está em uso? Pra mim sua visão do que é social, do que são papéis sociais e pra quê eles servem é estreita e, curiosamente, funcionalista.

"Caso o artefato não se adeque ao gosto, então ele desempenha uma **disfunção** no corpo social que deve ser tratada com as medidas repressivas ou excludentes cabíveis."

Eu marquei o ponto "funcionalista" da sua fala. A repressão ou exclusão acontece o tempo todo, é a lógica dos conflitos de poder entre os signos que compõem a cultura. No entanto, algo que se encaixe no gosto não é uma disfunção, mas **outra** função, uma que não está de acordo com a estética dominante mas depende ela para existir.

Esqueça a metáfora do corpo social funcionalista. O corpo contemporâneo não tem órgãos e não funciona, mas agencia. Você pensa estética em termos de dominante/marginal, quando hoje vivemos a molar/molecular. A estética dominante não domina, mas exerce um domínio delegado justamente por aqueles que produzem e vivem a estética marginal.

Esse conflito entre o que é molar e o que é molecular não só tem função social como é o "socius" puro. Eu evito falar em disfunção, distorção, subversão e todos os outros termos que pressupõem uma "verdade" e uma via alternativa, paralela, underground e afins. O dominado é dominado até assumir o posto de dominante.

Nessa linha de raciocínio, insisto que o argumento do Petroski é perda de tempo. A utilidade de um objeto vai muito além do que você diz que ele recorta e é justamente por isso que a forma responde às diversas funções. O que vale enfatizar é que as funções são cada vez menos práticas e cada vez mais sociais e as metodologias ditas "sociais" de design são uma tentativa de levar isso em conta.

Pra mim é mais do que óbvio que a função social está dentro do produto, embutida nele, indissociável. Tudo que vejo você pregando (usabilidade, acessibilidade, design participativo etc) não são mais do que tentativas de impregnar os projetos com aquilo que chamamos de social.

Já vivemos períodos onde a estética sobrescreveu a função prática dos objetos, assim como observamos hoje uma relação direta entre dimensões práticas e simbólicas. Essa discussão já foi feita de maneira brilhante pelo Baudrillard e até uma criança de 5 anos já entendeu o recado: não compramos produtos, nem marcas, mas estilos de vida. Proporcionar estilos de vida é uma função dos objetos? Sem dúvidas, e é uma função **prática**. O objeto que não proporciona isso **não funciona** para o usuário, invalidando imediatamente todo e qualquer planejamento de funções práticas e estéticas pelo designer.


Discussão
José Pirauá
11/06/07 às 22:46

Fred,

A teoria funcionalista é muito útil à práxis do design. Entretanto, diferente de outras disciplinas, não considero e nem acho que faz muito sentido considerar a Estética sobre essa ótica.

No tocante ao conflito, creio que faz mais sentido tomar a visão de Nietzsche, na qual as crises são favoráveis à evolução, ou seja, é preciso haver instabilidade, atrito e inevitavelmente destruição para que surja algo novo e melhor. O conflito pode ser, então, considerado uma função social.

Quanto às contradições, concordo que o homem vive envolvido em várias contradições e essas têm um papel importante nos fenômenos estéticos.


Hugo,

O estilo de vida do que compramos é percebido nas formas sensíveis dos produtos, isto é, está na aparência e, portanto, diz respeito à função estética. Na aparência dos produtos percebemos (entre outras coisas) um valor de uso, uma promessa de função prática que, até depois do uso efetivo, continua sendo apenas uma promessa que pode ou não ser cumprida.


Discussão
Frederick van Amstel
11/06/07 às 23:54

Concordo com suas palavras, Pirauá, só continuo achando problemático o uso do termo função.

Pensando em estética dentro do campo do Design...

... e se ao invés de função prática trabalharmos com propiciação no sentido Gibsoniano, indicando aquilo que o objeto em conjunto com um ser-vivo propicia ser feito? Trata-se de uma relação de encaixe, de adequação entre as características do ser-vivo (intenções, fisiologia, etc) e as do objeto (formas, texturas, etc). Mais sobre aqui:

http://usabilidoido.com.br/propiciacao_e_clicabilidade.html

.. e ao invés de função estética falarmos em fruição estética? Estética como algo que se experimenta e cuja experiência pode afetar a própria noção de existência, independentemente de estar servindo às forças sociais majoritárias.

É lugar comum dizer que uma coisa "funciona que é uma beleza", o que indica no senso-comum a percepção de uma relação entre função e estética, mas essa relação não é sempre existente. Nem tudo o que é belo precisa funcionar.


Discussão
Ligia Inhan
20/07/07 às 18:02

Muito interessante esse debate. Como principiante tenho muitas dúvidas sobre esse assunto.
Pode-se dizer que o Design Moderno foi construído a partir de uma ideologia funcionalista?
Me parece que Walter Groupios entendia e aplicava a ideologia "forma segue a função" de forma diferente de Tomas Maldonado e também de Horst Rittel.
Não tenho base para concordar ou discordar da teoria funcionalista, mas percebo que ainda hoje nós sentimos a influência dessas três formas-pensamento, além de muitas outras, (i.e. "styling"). Assim, pode-se afirmar que dentro do design moderno coabitavam estilos ou abordagens diferentes de uma mesma teoria funcionalista que influenciavam o projeto de design?
Você pode falar um pouco mais sobre isso?


Discussão
Frederick van Amstel
20/07/07 às 21:55

Ah, com certeza Ligia. Todas as teorias são diversificadas em diferentes correntes. E, de fato, elas se transformam ao longo da história, mantendo alguns traços e incorporando outros.

Mas eu não sou a pessoa mais indicada para falar especificamente sobre como tais teorias se manifestaram no Design.


Discussão
Delvair Macedo Jr.
02/04/08 às 13:22

já pensou em aplicar todo esse conhecimento de design em seu próprio site?
regras básicas de tipografia, ergonomia, webdesign, teoria da cor e expressão bidimencional cairiam como uma luva!

aí depois você pensa em contestar usabilidade, estética ou oque for..


Discussão
Fábio Martins
28/06/08 às 09:59

Então eu pergunto: o que é a função?
Acho que cometes um erro em assumir a função como usabilidade ou praxis.


Discussão
joao
14/05/09 às 13:34

odiei sai dai tomate neles


Discussão
Elias
15/06/11 às 15:42

Últimas palavras do texto: "Os melhores designs encantam, os medíocres funcionam". E quando acaba o encanto, sobra o quê? Encanto é um conceito muito mais relativo que o de performance, que, em muitos casos, pode ser mensurado. O artigo é bonitinho, tem seu encanto, mas é ordinário...




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