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Raciocínio dialético no pensamento projetual

A criatividade que vem da contradição.

Pensamento dialetico ying yang

O raciocínio lógico é a base do pensamento projetual sistemático, aquele que separa as partes do todo e lida com uma coisa de cada vez. Quanto mais lógico for o raciocínio, mais sistemático será o projeto. Tal raciocínio é valorizado pelas disciplinas ligadas às Ciências Exatas, como as Engenharias, Computação e Matemática.

Embora o raciocínio lógico seja também empregado nas disciplinas ligadas às Artes e Ciências Sociais, tais como Design, Arquitetura e Comunicação, este não é o tipo de raciocínio mais comum. No pensamento projetual intuitivo e também no expansivo, o raciocínio característico é o dialético.

É curioso que este tipo de raciocínio ainda seja pouco conhecido em tais disciplinas. No Design, em particular, há pouquíssimo conhecimento a respeito. Os designers sabem que não pensam de maneira lógica o tempo todo, porém, sabem muito pouco sobre como pensam quando não estão sendo lógicos.

Cerebro designer

Por exemplo, quando um designer faz o briefing com o cliente e recebe uma lista de problemas a solucionar, dificilmente ele soluciona os problemas da lista. Isso porque durante o projeto, os problemas são redefinidos diversas vezes. Com frequência, o problema dado pelo cliente não realiza suas próprias intenções ou mesmo as intenções dos usuários. Por isso, parte do trabalho do designer consiste em investigar qual é o problema que vale à pena ser solucionado, isto é, problematizar o problema.

Se o problema fornece os limites para o raciocínio lógico se desenvolver e chegar à uma solução, para o raciocínio dialético, o problema é apenas a ponta do iceberg. O designer não aceita o problema como foi proposto, pois ele quer saber o que está por trás do problema. Ele intui (graças à experiência prévia) que redefinir o problema pode levar a uma solução inovadora ou menos óbvia.

Na dialética, a raiz dos problemas (e também das soluções) é chamada de contradição. Uma contradição é uma unidade de forças opostas disputando a hegemonia sobre uma atividade ou espaço. Trata-se de uma tensão latente que pode explodir como um conflito. Quando o conflito emerge, existe a possibilidade de um dos lados ficar mais forte ou da contradição ser completamente superada.

Veja por exemplo, a contradição expressa na obra A Traição das Imagens, de Rene Magritte.

Fs Magritte Pipe1

O texto diz "isso não é um cachimbo", o que contradiz a imagem acima do texto. Por outro lado, a imagem de um cachimbo de fato não é um cachimbo. O que a obra coloca em evidência é a dependência que temos da representação para conhecer coisas que estão distantes de nossos sentidos. Ainda, enfatiza o risco dessa representação ser diferente do objeto original, traindo quem a vê. O traço realista utilizado pelo pintor deixa claro que nem mesmo o realismo escapa da contradição.

A contradição entre a representação e o objeto é uma que ainda não foi superada em nossa sociedade, mas que coloca uma série de problemas e soluções possíveis para a atividade de design. Ao invés de tentar eliminar essa contradição, designers se aproveitam dela, em especial, quando trabalham junto com publicitários.

Heinzslices

A contradição parece um absurdo, por isso o raciocínio lógico costuma ignorá-la ou convertê-la numa escolha binária: isto ou aquilo. No raciocínio dialético, pelo contrário, a contradição é aceita no pensamento pois estimula a ação.

Não é possível identificar uma contradição sem transformar o mundo, pois a própria consciência da contradição já agrava sua tensão. Muitos designers, ao se dar conta da contradição da representação, entram num questionamento ético difícil de ser resolvido. Porém, ao invés de deixar a profissão para evitar enganar as pessoas, a maioria dos designers prefere continuar agindo.

Designers sabem que a contradição é uma característica da sociedade e que ela se reproduzirá independente de sua ação individual. Rechaçar, ignorar ou excluir a contradição é inútil. O que pode ser feito é agir para dar força ao lado que está mais fraco da contradição, no caso, o objeto.

Por exemplo, as embalagens sinceras de Fabrício Fajardo chamam a atenção para o que de fato está contido em alimentos industrializados: ingredientes pouco saudáveis. Aqui vemos uma ação que revela o objeto costumeiramente escondido pela representação.

Embalagens Sinceras

Uma ação mais radical feita por mim e pelo meu colega da PUCPR Rafael Camargo foi a Árvore-máquina de Natal que demos de presente para a ODPH. A proposta era deixar em evidência os objetos que escolhemos para representar o símbolo natalino, uma vez que tais objetos são fundamentais para a economia da Vila Torres, local onde atua a ODPH.

Arvore natal vila torres

Esta obra foi feita durante a primeira visita nossa para conhecer a comunidade Vila das Torres. Nossa intenção é desenvolver projetos de design social com essa comunidade vizinha da PUCPR. Ao invés de apenas observar passivamente, queríamos demonstrar que estamos dipostos a botar a mão na massa para mudar a relação da Universidade com nossos vizinhos.

No raciocínio dialético, o conhecimento surge da prática pois o que se busca conhecer é algo em transformação, no caso acima relatado, a relação entre os vizinhos. A gente poderia ter analizado a relação sem intervir na comunidade e chegado à conclusão (óbvia) de que a PUCPR precisa desenvolver mais projetos com seus vizinhos. Este seria um raciocínio lógico que não acrescentaria novos conhecimentos, como são muitas das pesquisas científicas. Em contraste, nossa Árvore-Máquina de Natal, apesar do seu improviso, já criou conhecimento prático de como é possível desenvolver projetos relevantes com a comunidade.

Entretanto, esse tipo de conhecimento é difícil de compartilhar, pois está intimamente ligado às experiências vividas na prática. Só compreende bem quem tem a chance de participar diretamente. Essa é uma limitação que o raciocínio lógico pode ajudar a superar. A experiência vivida pode se converter em sistema, desde que a redução seja posta de novo em prática, com o intuito de validá-la. Ou seja, o raciocínio dialético gera questões a serem sistematizadas pelo raciocínio lógico, enquanto este gera sistemas para serem questionados pelo raciocínio dialético.

Em suma, o raciocínio dialético não elimina o lógico, porém, como disse no começo do post, o dialético predomina na atividade de design. Isso explica melhor a insistência dos designers em colocar a mão na massa, prototipar, gerar alternativas e testar o que estão criando. O que se busca com essas ações é algo que está em transformação: o conceito emergente do produto ou serviço.

Bluetooth watch1

Enquanto o raciocínio lógico segue etapas mais ou menos previsíveis, o raciocínio dialético segue o movimento do mundo, pois faz parte de sua própria transformação. Isso significa que o pensamento pode ser levado de um lado para o outro, ricocheteando nos conflitos encontrados. Nesse tipo de raciocínio, o pensamento não é aplicado ao mundo, mas sim algo que surge dele.

Devido a essa origem imanente, não faz sentido avaliar se uma solução criada pelo raciocínio dialético é verdadeira ou falsa, certa ou errada segundo critérios pré-estabelecidos. Não há sistema de referência estável para avaliar isso. O que se pode avaliar é se o raciocínio dialético conseguiu de fato fazer parte de uma mudança, de uma transição ou de um processo. Isso às vezes é chamado de efeito catalítico.

A transformação da realidade vai depender da quantidade de tentativas. Quanto mais tentativas, maior é a chance de criar algo qualitativamente novo. A geração de alternativas serve para conhecer um objeto que ainda não existe através de seu espaço de possibilidades. Cada alternativa explora uma possibilidade, porém, às vezes as alternativas criam novas possibilidades. Estas alternativas disparam a redefinição do problema e a consequente transformação qualitativa do projeto.

Num post anterior, eu descrevo esse processo em três momentos: criação, análise e síntese.

A criação surge à partir de uma força externa, seja ela uma inspiração, demanda ou necessidade extrínsica ao processo de design. Essa criação é analisada em seus diferentes aspectos ou partes para verificar se atende ao que foi demandado. Por fim, as partes são reunidas na síntese, que aproveita o conhecimento gerado na análise para aperfeiçoar o projeto.

Modelo dialetico espiralado

Estes momentos não são como as etapas do raciocínio lógico, pois representam uma mudança histórica e não uma mudança lógica. Quando se chega numa síntese, o design e o designer já não são mais os mesmos. Eles já se transformaram por adquirir (ou perder) qualidades.

A mudança proporcionada pela análise é quantitativa e não qualitativa. O designer fica sabendo mais sobre o assunto, mas não cria nada de novo. O dúbio momento da síntese/criação é justamente quando há essa transformação qualitativa. O raciocínio lógico pode ajudar no momento da análise e da síntese, mas raramente ajudará no momento de criação. Ele pode até prejudicar a criação, impondo critérios e restrições antes destes serem realmente necessários.

Caged

Às vezes, é uma boa suspender o raciocínio lógico temporariamente. Porém, sem ele, a criação não irá resistir ao próximo ciclo de análise. Questionamentos, especulações e críticas podem destruir o conceito e levar o projeto de volta à estaca zero.

Com esse post, minha intenção não é eliminar o raciocínio lógico do pensamento projetual. O que quero é fortalecer o lado que está mais fraco atualmente nas teorias de design. Embora veja um esforço legítimo dos profissionais em apresentar o raciocínio dialético (sem necessariamente usar esse termo) associado ao pensamento projetual expansivo, vejo muitos pesquisadores descreverem este mesmo raciocínio como sendo um raciocínio lógico baseado em etapas.

Momento design thinking 6 638

O que eles não percebem, é que este "design thinking" que se fala atualmente não é o mesmo de outrora, pois indica uma prática expansiva ao invés de indicar um modo de pensamento. Porém, o que mostro aqui é que essa prática expansiva também inclui um modo de pensamento, bem diferente daquele identificado pelos pesquisadores de outrora.

O raciocínio dialético, embora já seja empregado há muito tempo pelos designers, só recentemente recebeu atenção séria de pesquisadores. Na medida em que os pesquisadores deixem mais claro como ele se manifesta, os profissionais da prática terão maneiras mais adequadas de explicar o que fazem.

Esse post é mais uma adaptação para tornar acessível a discussão contida na minha tese de doutorado sobre Design Expansivo.


Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 16/01/2017

Palavras-chave

dialética    pensamento    design    

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Comentários

Discussão
Eliesse Scaramal
17/01/17 às 09:18

Muito bom texto. Excelentes argumentos.


Discussão
Renata Sembay
22/01/17 às 20:24

Interessante como conseguiu detalhar os processos de soluções-criativas, que podem ser intuitivos e complexos. Fiquei interessada em ler mais sobre a sua tese. Legal também a pesquisa-ação na Vila Torres.




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(aguarde que é demorado mesmo...)


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