Você já participou de uma conversa em que, de repente, percebeu que um problema que parecia só seu era, na verdade, compartilhado por todo o grupo? Esse é o ponto de partida do círculo de cultura projetual. Em vez de separar reflexão e ação, o método convida as pessoas a ler e refazer o mundo ao mesmo tempo. Inspirado em Paulo Freire, no Teatro do Oprimido e em outras abordagens críticas, ele utiliza desenhos, mapas, objetos, jogos, vídeos e outras mediações para tornar visíveis as contradições que normalmente passam despercebidas no cotidiano.
O círculo de cultura projetual não procura revelar quem teve a melhor ideia ou problema mais relevante. Seu objetivo é formar um corpo coletivo capaz de enxergar aquilo que nenhum indivíduo conseguiria perceber sozinho. À medida que o grupo revisita suas próprias experiências, problemas inicialmente vistos como falhas pessoais passam a ser compreendidos como efeitos de estruturas sociais mais amplas. O resultado não é apenas uma leitura mais crítica da realidade, mas também a capacidade de imaginar e experimentar formas coletivas de transformá-la.
Esta será uma introdução rápida ao círculo de cultura projetual, um método de pesquisa próprio do Design Prospectivo, mas também um método pedagógico e de intervenção e transformação da realidade, como é característico dos métodos de Design Prospectivo que vêm surgindo neste programa. Esta apresentação não pretende explicar todos os aspectos do método. Vou apenas mencionar algumas referências que poderão ser revisitadas posteriormente. Todas elas estão listadas no último slide, como de praxe.
Começo pelo livro The Culture of Design (2000), que define aquilo que traduzo como cultura projetual. Trata-se da cultura específica do projeto que produz sentidos e processos para uma determinada produção da realidade, característica da contemporaneidade moderna, eurocêntrica e imperialista. Logo no início da obra, Guy Julier afirma, em outras palavras, que o design foi historicamente utilizado tanto para promover desenvolvimento e emancipação quanto para produzir opressão. Essa dimensão da opressão não é desenvolvida em profundidade no livro, mas há abertura suficiente para discuti-la dentro do conceito de cultura projetual. O modelo proposto por Julier não captura esse aspecto de forma tão evidente. Seu foco está no designer como mediador entre a produção e o consumo da realidade, ou da cultura material, atribuindo sentidos adicionais a essa cultura material, razão pela qual ele a denomina cultura do design.
Julier pesquisa esse tema há quase trinta anos. Em seu artigo mais recente, publicado em 2025 na revista Design & Culture, ele mapeia as diferentes áreas que passaram a dialogar com os Estudos Culturais do Design, denominação que atualmente utiliza para esse campo. Entre essas áreas estão os estudos de gestão, economia, geografia, sociologia, antropologia, teoria social, estudos culturais, história do design e estudos em design.
Um aspecto particularmente interessante desse artigo, que dialoga diretamente com o trabalho da Rede Design & Opressão, é a identificação de uma cisão nos estudos da cultura do design, ou cultura projetual. De um lado, encontram-se os estudos voltados para uma leitura crítica da realidade; de outro, aqueles comprometidos com a produção crítica da realidade, isto é, com a transformação da realidade por meio do projeto. Essa separação entre teoria e prática, frequentemente vivenciada de forma bastante evidente nos currículos de design, manifesta-se igualmente na pesquisa e na constituição desse campo.
Vou dar um exemplo rápido de como essa cisão afeta nossa percepção da realidade. De um lado, há a leitura crítica, já bastante consolidada nos Estudos de Design e na História do Design. Parte-se de uma leitura ingênua do mundo, que é posteriormente questionada pela leitura da palavra, isto é, pela leitura de textos e artigos escritos por pesquisadores, como o próprio Guy Julier. Espera-se que, por meio dessa leitura, seja desenvolvida uma compreensão mais crítica do mundo. A maior parte dos currículos de História do Design e de Estudos de Design segue essa dinâmica. Lê-se o texto, reflete-se sobre ele e, no máximo, realiza-se alguma atividade de criação ou de reprodução de uma obra clássica para aprofundar a compreensão. No fundo, porém, o objetivo permanece o de desenvolver novas leituras críticas do mundo.
No outro polo encontram-se o Design Participativo e o Design Crítico ou Especulativo. Nesses casos, parte-se de uma feitura ingênua do mundo, isto é, de uma forma de fazer pouco refletida, normalmente associada ao trabalho alienado. Por meio de uma poetização ou estetização desse processo -- aquilo que podemos chamar de feitura da palavra -- procura-se desenvolver a capacidade de criticar essa própria feitura do mundo, produzindo um nível de consciência crítica capaz de sustentar outras formas de projetar. Historicamente, essas duas áreas permaneceram separadas, cada uma desenvolvendo-se por caminhos distintos. No Design Prospectivo, buscamos superar essa cisão. Uma das maneiras de fazê-lo é por meio do círculo de cultura projetual.
O círculo de cultura projetual combina elementos do círculo de cultura de Paulo Freire com contribuições de Mariana Souto-Manning, pesquisadora contemporânea que articula Teatro do Oprimido e Pedagogia Crítica. Em seu livro, ela demonstra como o círculo de cultura freiriano pode ser utilizado como estratégia de investigação das interações opressivas e libertárias no contexto escolar. Além disso, estabelece conexões com outras áreas, como estudos de observação baseada em vídeo, análise de imagens e análise do discurso. Trata-se de uma obra extremamente rica. Além desta, o método incorpora contribuições do Laboratório de Mudanças de Yrjö Engeström e Jakob Virkkunen, que foram referências importantes durante meu doutorado. Naturalmente, minha tese de doutorado, Design Expansivo, também integra esse conjunto de referências, assim como A Estética do Oprimido, de Augusto Boal e Bárbara Santos. Não entrarei em detalhes sobre a contribuição específica de cada uma dessas referências, pois esta apresentação pretende apenas oferecer uma visão geral.
Em termos gerais, este é o modelo inicial do círculo de cultura projetual, que procura conectar a leitura da palavra e a feitura da palavra, tendo o mundo como mediação entre ambas. O círculo de cultura projetual emprega, portanto, mediações geradoras de trajetos e projetos entre a palavra e o mundo.
Já vimos, em aulas anteriores, que entre a leitura do mundo e a leitura da palavra podem ser utilizadas as imagens-mundo, conceito mencionado por Emiliano Dantas e que vocês vêm explorando amplamente em seus diários gráficos. Além dessa mediação cultural, existe também a palavra-mundo, isto é, a palavra que significa o mundo, que traz consigo uma determinada percepção de mundo, uma cosmopalavra, por assim dizer. A própria palavra design pode ser entendida como uma palavra-mundo.
Além dessas duas mediações, já relativamente estabelecidas nos campos da Pedagogia Crítica, da Antropologia e dos Estudos da Imagem, estamos propondo outras duas categorias mediadoras que ainda são pouco conhecidas e talvez precisem ser desenvolvidas mais sistematicamente: as ferramentas-mundo e o corpo-mundo. A ferramenta-mundo faz parte do mundo. Ela se destaca dele, mas o carrega consigo. Ao mesmo tempo, existe um mundo que acompanha essa ferramenta, ou seja, o mundo da própria ferramenta. O mesmo raciocínio vale para o corpo-mundo. Não se trata apenas de um corpo singular, mas de um corpo que expressa uma dimensão universal ou, em termos mais inclusivos, dos corpos, corpas e corpes. Essas mediações culturais podem desenvolver-se tanto no contexto da leitura do mundo quanto da feitura do mundo. Seu objetivo é conduzir à intervenções e transformações da realidade progressivamente mais críticas.
Aqui estão alguns exemplos de mediações culturais que já utilizamos nesta disciplina. Já mencionei a codificação presente nos diários gráficos, mas podemos incluir também o Baralho de Crises, que utilizaremos daqui a pouco. Os conceitos teóricos, os mapas conceituais e os mantras que trabalhamos ao longo da disciplina constituem exemplos de palavras-mundo. Além disso, o Lego Serious Play, utilizado na primeira aula, e o Laboratório de Avaliação do Moodle são exemplos de ferramentas-mundo. Basta pensar em como o Laboratório de Avaliação traz para vocês o mundo dos congressos científicos e dos periódicos acadêmicos, permitindo experimentá-lo na prática. Entre a feitura da palavra e a leitura do mundo também se encontram os diálogos comensais realizados durante os intervalos deste curso. Aliás, no próximo intervalo faremos a visita ao Arraial do NEABI. Da mesma forma, os vídeos improvisados colocaram os corpos de vocês em evidência, não para representar indivíduos isolados -- o meu nome ou o seu nome --, mas aquilo que somos, ou deixamos de ser, enquanto somos socializados. Esses exemplos ilustram aquilo que chamamos de corpos-mundo.
Essas mediações geradoras procuram capturar as contradições da realidade e reproduzi-las em espaços de possibilidades, sob a forma de trajetos e projetos. Esses trajetos e projetos, por sua vez, fazem emergir novas contradições. Começamos, assim, a capturar, perceber e experimentar essas contradições, tornando visíveis os não ditos, os não eus e as negações daquilo que gostaríamos de afirmar, mas que determinadas formas de opressão impedem de ser afirmado.
É preciso admitir, contudo, que esse processo envolve reconhecer a ingenuidade presente tanto na primeira leitura quanto na primeira feitura do mundo. Essa ingenuidade não constitui um problema; pelo contrário, ela é necessária. Neste método, parte-se do pressuposto de que toda primeira leitura será inevitavelmente ingênua. Não há problema em dizer algo que mais tarde venha a parecer equivocado ou simplista. Essa possibilidade está prevista e, de certo modo, é estimulada. No início do processo, é importante sentir-se à vontade para formular interpretações que poderão ser posteriormente revistas. Sem essa abertura, não há propriamente um círculo de cultura.
É apenas por meio de sucessivas leituras e sucessivas feituras -- daí o caráter cíclico do método -- que se desenvolve uma consciência progressivamente mais crítica. Aos poucos, a estrutura profunda da realidade vai sendo desvelada juntamente com suas contradições. Começa então a aparecer o tecido social que articula afirmações, percepções e ações, tornando-as carregadas de sentido. Passa-se a compreender por que determinados elementos se conectam entre si, ou por que deixam de se conectar.
O círculo de cultura projetual prepara os participantes para prospectar não apenas como indivíduos, mas, sobretudo, como corpos coletivos. Seu propósito é levá-los para além da percepção, da opinião e da ideia subjetiva acerca das contradições da realidade. Trata-se de uma tentativa de enfrentar um problema recorrente em muitos métodos de design, centrados na figura do indivíduo genial e criativo que aplica um enquadramento inovador (framing) a um problema. O círculo de cultura projetual não parte do pressuposto cognitivista e individualista da criatividade. Ao contrário, considera que os corpos coletivos têm um potencial de transformação muito maior do que os indivíduos isolados.
A passagem da consciência individual para a consciência coletiva -- ou, em outras palavras, a constituição de um corpo coletivo -- não é um processo simples, tampouco garantido. Ela exige tempo e repetição. É necessário realizar o ciclo diversas vezes até que seja possível sentir aquilo que as outras pessoas estão sentindo. Por isso, na representação do método, há um círculo menor dentro do círculo maior, simbolizando sujeitos que refletem sobre o que já viveram em círculos anteriores. O círculo de cultura começa realmente a amadurecer quando incorpora um círculo anterior como objeto de reflexão. Os trajetos percorridos em experiências passadas tornam-se matéria para discutir novos círculos de cultura e projetar futuros trajetos e projetos. Dessa forma, cada ciclo passa a alimentar o seguinte.
Essas mediações geradoras funcionam, portanto, como espelhos críticos do corpo coletivo prospectante. É como se estivéssemos, coletivamente, olhando para um espelho para enxergar aquilo que somos enquanto coletivo que se projeta no mundo. Evidentemente, esse espelho não reflete a forma dos nossos rostos. Ele reflete outros aspectos, porque esse corpo não é apenas um corpo biológico; é um corpo cultural, dotado de formas distintas das do corpo individual. Ainda assim, esse espelho crítico tende a produzir muito incômodo, pois apresenta inicialmente as contradições como se fossem individualizadas. Surge a sensação de que o erro, o problema ou aquilo que causa desconforto na imagem refletida foi produzido por você, ou de que é você quem sempre traz aquele problema. É a experiência típica da pessoa que se percebe como a "ovelha negra" da família. Enquanto a compreensão permanece restrita ao indivíduo, as contradições aparecem como problemas pessoais.À medida que se percorrem sucessivos círculos de cultura, começa-se a perceber que esse incômodo é compartilhado e possui uma origem social. O processo consiste justamente em reler a própria leitura para identificar aquilo que, na contradição inicialmente percebida como individual, pertence, na verdade, à estrutura da realidade. As mediações geradoras são fundamentais para que o corpo coletivo sinta as contradições constitutivas da realidade compartilhada e, a partir delas, alcance aquilo que chamamos de estrutura profunda da realidade. Em nosso programa, essa estrutura profunda recebe o nome de infraestrutura ou metaestrutura.
Este é o modelo mais completo do círculo de cultura projetual até o momento. Ele envolve uma contraposição constante entre aquilo que vemos na imagem -- o nosso não ser -- e aquilo que somos por meio de nossas ações, para além da imagem e da própria produção da imagem. Trata-se de uma dialética entre o ser e o não ser, compreendendo o ser sempre como um coletivo: um ser para si, um trabalho para si, um projeto para si. Esse é o objetivo final do método. O círculo de cultura projetual procura levar um corpo coletivo a ler a si mesmo, aprender a dizer a sua própria palavra e refazer o seu mundo diante das contradições encontradas nos trajetos e projetos que transformam a realidade.
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Autor
Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 30/06/2026