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Pensamento projetual nas engenharias

Do estranhamento à colaboração.

Design lab twente person

A Universidade de Twente me contratou como pesquisador doutorando, dentre outras, para disseminar o pensamento projetual (design thinking) na faculdade de Engenharia. Na verdade, as engenharias já dispõem de um pensamento projetual, porém, este é muito diferente do pensamento dos designers de interação.

Eu resumo o pensamento projetual de Tim Brown (Ideo) nos seguintes pontos:

  • Estimular a colaboração entre disciplinas
  • Fazer contato direto com usuários
  • Desenvolver empatia pelos usuários
  • Manter uma visão holística do projeto
  • Falhar cedo e falhar sempre

Nas engenharias, seguindo Pahl & Beitz, eu resumo o pensamento projetual assim:

  • Definir os requisitos antes de começar a projetar
  • Abstrair o problema do contexto específico
  • Projetar módulos ou componentes em separado
  • Criar sistemas que conectem todos os componentes
  • Evitar o erro e a falha
  • Tomar decisões baseadas em critérios quantitativos

Essa comparação é um tanto injusta, já que existem vários outros tipos de pensamentos projetuais, tanto no design de interação quanto nas engenharias. Cada organização e cada disciplina do conhecimento tem uma cultura de projeto específica. Fica difícil identificar os contornos dessa cultura, porém, a partir do momento em que se migra de uma cultura para a outra, as diferenças são sentidas na pele.

Wolverine batmen

Quando eu comecei na Twente, a primeira coisa que senti desconfortável foi a negação dupla da ambiguidade e da multiplicidade. A aceitação de que uma coisa pode ter diferentes sentidos é uma das noções fundamentais do design. Os designers jogam com a ambiguidade o tempo todo, tentando ampliar as possibilidades de sentido. Para muitos engenheiros, a ambiguidade é vista como um erro.

  • O projeto deve ser claro e sem ambiguidades
  • Os componentes não devem contradizer a visão geral do sistema
  • Cada coisa tem o seu lugar certo
  • Só existe uma única Ciência e um único pensamento projetual. O resto é charlatanismo

Tendo migrado do design de interação, eu já cheguei aceitando tal cultura de projeto, porém, os engenheiros não aceitavam as minhas práticas no começo. Como eu estava sozinho, eles acharam que eu era uma exceção. Fui rotulado de artista e, mais tarde, de filósofo. Eu não sou nem um dos dois, mas a rotulagem foi a maneira como eles encontraram para me aceitar sem me incluir. Se eu fazia algo que desafiava a cultura dominante, eles diziam: "Ah, o Fred é artista, ele é assim mesmo. Deixa ele fazer a arte dele".

Fred tratando dados

Essa indiferença preveniu que os engenheiros aprendessem com o pensamento projetual que eu desenvolvia, porém, a indiferença foi diminuindo na medida em que eu obtinha resultados com meus projetos. A partir do momento em que começamos a colaborar, surgiram inovações híbridas como, por exemplo, as visualizações low-tech.

No final do meu doutorado, os engenheiros lamentaram a minha partida e reconheceram finalmente que eu havia trazido uma contribuição importante para o pensamento projetual da faculdade. O recém criado DesignLab da Universidade de Twente incorpora vários dos conceitos que eu defendia: multidisciplinaridade, prototipação low-tech e colaboração espontânea.

Design lab twente guanabana

Esse mérito não é meu. Eu simplesmente trouxe os valores da cultura de projeto do design de interação. Nas minhas atitudes, eu representava uma coletividade que não era conhecida pelos meus amigos engenheiros por isso eu era tratado como exceção. A tese que estou escrevendo recupera as raízes históricas desse pensamento coletivo com o objetivo de diminuir o estigma e também o culto ao designer criativo. Espero que ela seja lida não só nas faculdades de design, mas também nas de engenharia.


Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 25/04/2015

Palavras-chave

design    thinking,    cultura    organizacional    

Opções



Comentários

Discussão
Rodrigo
30/09/15 às 23:16

Fiquei curioso se durante o trabalho não apareceu o tema arquitetura no contexto da engenharia...


Discussão
Frederick van Amstel
01/10/15 às 23:38

Com certeza Rodrigo. Encontrei na Arquitetura um pensamento projetual mais próximo do Design de Interação, porém, ainda assim bem diferente. Por isso direcionei minha tese justamente para fazer uma contribuição à Arquitetura com o pensamento projetual do Design de Interação. Em breve estará publicada.




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(aguarde que é demorado mesmo...)


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