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Design: solução de problemas ou mediação de contradições?

O que fazer com a contradição?

Conflito de idéias

Historicamente, o Design surgiu num espaço impreciso entre a Engenharia e a Arte. Da Engenharia, o Design herdou o pensamento lógico, que se configurou como método de trabalho predominante. Grande parte das metodologias atuais em uso podem ser reduzidas à sucessivos ciclos de identificação e solução de problemas.

O positivismo faz-nos crer que é possível encontrar a solução para qualquer problema em que possa ser aplicada a lógica formal. Isso implica em perseguir o ideal do "design perfeito", ou seja, aquele que é bem resolvido, que não possui contradições.

No seu livro Design para a Internet, Felipe Memória assume sua crença neste ideal:

O que pretendo aqui é discutir um processo, uma junção de idéias que possam fazer com que o produto atinja um nível de excelência tal, que proporcione às pessoas algo mais próximo do que chamo de "experiência perfeita", o sentimento de fluidez potencializado pela experiência de comunidade - por um design bem projetado e um desenvolvimento bem construído. (pág. 161)

Memória compara os elementos que permitem esse pertencimento à uma comunidade através de um produto interativo ao "elemento álcool" numa festa, ou seja, aquilo que torna o momento inesquecível. Mesmo uma festa com pessoas desinteressantes, música enfadonha e comida escassa pode ser legal se tiver o tal "elemento álcool". Isso equivale a dizer que, embora o Orkut tenha alguns defeitos, ainda assim existe algo ali que nos vicia.

Comunidade viciados no orkut

Na minha visão, esse algo não é tão simples como álcool. Na verdade, nem o álcool por si só é capaz de proporcionar boas festas. O álcool pode agir tanto como catalisador como inibidor das relações sociais, dependendo de quem consome e onde é consumido. Em geral, o álcool permite que as pessoas percam a inibição de assumir uma identidade mais ousada do que o normal. A ousadia de uma pessoa pode ser divertida para alguns festeiros e extremamente importuna para outros. Isso significa que a festa pode oferecer uma experiência coletiva aparentemente prazeirosa ao mesmo tempo uma experiência individual desagradável.

Bêbados numa festa

Esse conflito entre forças opostas é chamado de contradição e, por mais que se persiga o ideal de eliminar todas as contradições da vida humana, elas não poderão ser eliminadas completamente, pois o fim de uma contradição dá início a outras contradições. O álcool e o Orkut podem influenciar positivamente nossa percepção da realidade, mas depois que termina a festa ou a conexão, vem a ressaca.

Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come. O que você faz nessa situação? Negocia com o bicho, oras!

Nos últimos anos, vem crescendo teorias de Design que transcendem a mera solução de problemas, especialmente dentro do campo do Design de Interação. Para essas teorias, o designer é um mediador que negocia as características do design com as pessoas envolvidas, trazendo suas idéias (e contradições inerentes) para discussão no processo de design. Ele não resolve o problema de ninguém, ele media a dinâmica das contradições.

Algumas correntes acreditam que a mediação das contradições pode levar ao consenso, ou seja, ao ajuste de contradições que seja aceitável para as pessoas envolvidas no âmbito do Design (Teoria da Ação Comunicativa, Pragmatismo), enquanto outras encaram o consenso como um ideal inatingível e sujeito à transformações no curso da história (Teoria da Atividade).

Ambas tratam a contradição como algo inevitável e recomendam que o melhor a fazer é se aproveitar delas. Cabe ao designer mediador aceitar e compreender as contradições que estão em jogo no contexto em questão. Procurando a causa das contradições e prevendo as contradições em função do projeto do artefato, o designer adquire uma visão muito mais ampla da realidade concreta.


Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 19/09/2006

Palavras-chave

solução    problema    contradição    dialética    

Opções



Comentários

Discussão
christian pablo
19/10/06 às 10:24

Muito bom o artigo, mas fiquei com uma dúvida:

Será que este método do designer ser um mediador não se aplica somente a web 2.0???




Comente.






(aguarde que é demorado mesmo...)


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