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Afinal, o que é ficção projetual?

Um formato para discutir o futuro próximo.

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Ficção projetual (do inglês design fiction) é um formato para desenvolvimento de projetos especulativos sobre o futuro próximo da sociedade. Sua origem é a ficção científica, porém, tem propósito distinto do entretenimento.

A ficção científica surgiu no século XIX como uma reação lúdica à euforia das grandes invenções. Acreditava-se na época que a tecnologia poderia resolver todos os problemas da sociedade: saúde, comunicação, economia. Para tudo, haveria uma solução racional e perfeita. Escritores se puseram a pensar se realmente isso era possível e criaram estórias fantásticas sobre tecnologias do futuro. Surgia então o gênero literário de ficção científica.

A ficção projetual é mais recente, porém, existem projetos já no século XVIII que poderiam ser considerados precursores do gênero. O Panóptico de Bentham e o Falanstério de Fourier são projetos arquitetônicos que não foram constrúidos por seus idealizadores, mas que tiveram grande influência na arquitetura subsequente. Esses projetos possuem uma história interessante que coloca em evidência possíveis consequências sociais de sua implementação.

Falansterio

Foi no século XX que a ficção projetual se consolidou como gênero, apesar de ainda não ter esse nome.

Memex de Vannevar Bush, publicado em 1945 talvez seja a ficção projetual mais influente até o momento. Trata-se da descrição de um computador do tamanho de uma escrivaninha, capaz de ler conteúdo multimídia e fazer hiperligações. O Memex nunca foi construído como planejado, mas serviu de referência para vários projetos construídos como o Xanadu e o Xerox Star.

Memex

Outra ficção influente é o domo de vidro para ilha de Manhattam proposto por Buckminster Fuller. Ele acreditava que era possível criar um microclima dentro do domo e, consequentemente, diminuir a poluição gerada pela calefação da cidade. Apesar dele ter construído vários protótipos à partir de ideias como essa, foram seus projetos não construídos que encantaram as pessoas que estudam sua obra.

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Ficções projetuais se tornaram uma febre na arquitetura à partir dos anos 1960, acompanhando a emergência de movimentos utópicos e da ficção científica cinematográfica. Vale citar o trabalho dos arquitetos Paolo Soleri, Lebbeus WoodsConstant Nieuwenhuys e também dos grupos MetabolismArchigram e Superstudio. Esses arquitetos contribuiram para mostrar que a arquitetura era capaz de vislumbrar mundos completamente novos.

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A partir dos anos 1980, a ficção projetual se tornou uma ferramenta de marketing. As empresas de computação começaram a criar filmes mostrando sua visão de futuro e as tecnologias que estavam pesquisando em seus laboratórios. Os clássicos desse tipo de ficção são: Apple Knowledge Navigator (1987), Sun Starfire (1992), Nokia Morph (2008), Microsoft 2019 (2009) e A Day Made out of Glass (2011). Um dos temas recorrentes que aparecem nesses filmes é a tecnologia da empresa sendo utilizada por seus usuários de maneira muito fluida, construindo uma ideologia consumista sobre o futuro.

O papel de projetar essa fluidez foi gradualmente conquistado por profissionais de design, que viriam a se intitular mais tarde designers de interação. O surgimento de escolas de design de interação colocou o design no centro da produção de ficções projetuais. Sem o domínio técnico para desenvolver novas tecnologias, mas com vontade de discutí-las, os professores da área encontraram na ficção projetual o formato ideal para fazer críticas à maneira como as tecnologias estavam sendo incorporadas em nossa sociedade. A proposta do design era refletir sobre as implicações do dia-a-dia.

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O programa Design Interactions do Royal College of Art pode ser considerado o maior pólo de produção de ficções projetuais. O professor Anthony Dunne afirma em seu primeiro livro que seu objetivo era tornar o design tão denso culturalmente quanto um filme. Os projetos apresentavam uma visão diferenciada sobre a tecnologia, com frequência, uma visão mais crítica e distópica. Projetos como Placebo, Radiance Resort e Menstruation Machine causam um certo estranhamento à primeira vista, mas tratam de questões polêmicas da sociedade atual.

Algumas pessoas classificam o trabalho de Dunne e alunos como design conceitual, o que discordo. A diferença principal para o design conceitual é que a ficção projetual apresenta um produto dentro de uma estória. Além disso, a inovação formal característica do design conceitual é secundária nas ficção projetual.

O ponto da ficção projetual é mostrar um cenário factível para o futuro próximo da sociedade. A distância desse cenário futuro é um projeto, ou seja, o conhecimento científico e a tecnologia necessária para sua realização já se encontram disponíveis ou estão em vias de serem disponibilizados. Essa é também uma diferença fundamental com a ficção científica, que focaliza nos possíveis avanços da ciência em futuros mais distantes. A ficção projetual é sobre o futuro próximo, em geral, 10 anos daqui pra frente. O cenário focaliza nas mudanças no dia-a-dia de pessoas comuns e não em aventuras de heróis.

A ficção projetual tem o objetivo de apresentar algo novo, porém, diferente da ficção científica, esse novo precisa parecer possível. Com isso, espera-se que as pessoas pensem qual futuro elas querem e tomem atitudes para barrar ou apoiar projetos que tratem do tema. A ficção projetual não deixa o usuário ficar indiferente.

Ficção projetual é um tema que pesquiso desde a época do Faber-Ludens. Tinha a intenção de abordar o tema na minha pesquisa de doutorado, mas acabou não sendo possível. De volta ao Brasil, comecei a trabalhar com Rodrigo Gonzatto na PUCPR. Gonzatto já vinha produzindo ficções projetuais com os alunos de Design Digital há alguns anos. Fiquei satisfeito de engrossar essa frente de trabalho. Os trabalhos produzidos pelos nossos alunos e alunas podem ser encontrados no Tumblr Futurologias e na revista digital de mesmo nome.


Dicas

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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 30/12/2015

Palavras-chave

ficção    estória    narrativa    

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