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Blogs, sentimentos banais e superexposição

Opinião: nosso amigo andou lendo em excesso blogs pessoais banais e a literatura carregada de superexposição e massificação de interioridades não lhe caiu bem de jeito nenhum.

Leia o artigo completo no Webinsider

Frederick van Amstel



Assim como no século XIX era moda na elite intelectual ser melancólico, hoje é moda botar pra fora seus problemas psicológicos publicamente em blogs. Os escritores do romantismo viviam na boemia, pegavam friagem e morriam de tuberculose cedo. Os jovens de hoje parecem ser mais espertos, mas os sentimentos depressivos são os campeões em motivar posts nos blogs pessoais.



Isso não quer dizer que ninguém fale das conquistas, das paixões, da paz, das coisas belas. Pelo contrário, falam de tudo. Tudo mesmo. Acordou com o pé esquerdo porque no dia anterior levou um chute? Põe no blog. Está passando por uma crise de personalidade? Põe no blog. Seu cachorrinho novo te fez aflorar sentimentos maternais? Põe no blog. A temática quase sempre envolve os sentimentos mais idiossincráticos possíveis.



Segundo os psicólogos isso é bom. Paramos para pensar melhor nos nossos problemas, desabafamos e especulamos soluções. Podemos até receber sugestões e incentivos dos leitores do blog através dos comentários. Mas tudo isso tem um custo: a superexposição. Quem sabe se do outro lado não vai estar um psicopata carniceiro ou seu próprio patrão? Para os que temem, o anonimato é a saída.



Mas o que me preocupa não é isso. Estou mais preocupado é com a banalização generalizada desse momento de introspecção. Antigamente só dividíamos esses momentos com pessoas íntimas, de confiança, que seguramente poderiam nos ajudar. Hoje fazemos isso em público sem constrangimento. Assim como o ator de novela entrevistado no antigo programa da Xuxa sobre assuntos íntimos (aliás, uma das piores coisas exibidas na televisão nos últimos tempos), pessoas estranhas estarão influenciando a essência de nosso ser, digamos assim.



Se você acha que estou paranóico, então pense mais amplamente. Suponha que no seu círculo social todo mundo usa blogs para publicar sentimentos profundos e interioridades. Você é o único que resistiu a fazer isso, mas por educação, não pode deixar de ler os blogs dos seus amigos mais próximos. Será que você e, mais ainda seus amigos, não se condicionarão a pensar e agir de forma semelhante aos outros amigos nas situações que eles descreveram nos seus blogs? Quero dizer que isso pode gerar uma massificação das interioridades.



Na verdade, a partir do momento em que essas interioridades vêm a público, deixam de ser interioridades. Se estamos transformando todos nossos sentimentos em exterioridades, o que nos restará por dentro? Isso me incomoda, porque afinal vestimos as mesmas marcas de roupa, falamos a mesma língua, assistimos ao mesmo programa, mas nunca compartilhei com você meus sentimentos com relação ao racismo.



Digamos que um skinhead maluco viaja pela blogosfera fazendo apologia à discriminação racial. Obviamente ele será ridicularizado ou ignorado se for explícito demais. Mas digamos que ele seja um pouco inteligente e vá incutindo esses valores gradualmente na mente dos leitores e escritores. Se hoje a massa muda de opinião com umas três ou quatro edições do Jornal Nacional, em pouco tempo talvez ele possa conseguir influenciar a opinião de muitas pessoas.



Claro que o inverso também pode ser verdade e alguém consiga resolver o problema da fome no mundo. Mas, sei lá, acho que li blogs demais hoje e fiquei meio negativo, sabe? O universo é entropia pura, saca?… Amanhã tenho consulta com o meu analista (aquele cara que coça o nariz a cada 10 segundos) e… opa! Esqueci que isso aqui não é meu blog pessoal.



Para não terminar o post, ops, artigo no completo negativismo (li que isso dá azar), faço minhas as palavras do precursor dos blogs e dos românticos tuberculosos, Jean Jacques Rousseau, em Os devaneios do caminhante solitário: “O hábito de entrar em mim mesmo me fez perder enfim o sentimento e quase a lembrança de meus males; aprendi assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar verdadeiramente infeliz aquele que sabe querer ser feliz”.
Este artigo foi originalmente publicado no Webinsider.


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Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 21/12/2004

Palavras-chave

blog    sentimentos    emoção    perversão    banalização    

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