Resultado do Perfil Semiótico III

Observando as estatísticas de acesso e a participação dos leitores no perfil semiótico, percebi que quando um blog começa a publicar um post atrás do outro só sobre o mesmo assunto, os leitores perdem o interesse no assunto. Antes achava que isso só acontecia quando se publicava artigos muito longos, devido aos desconfortos da leitura no computador. Agora sei que o problema é mais embaixo.

Imaginava que a participação no perfil de terceiridade seria menor porque exigia muito mais dos leitores, mas não tão menor assim. Dos 184 usuários da primeiridade, apenas 14 participaram da terceiridade. Porém, como o perfil semiótico não é um método quantitativo (não depende de números), o teor das participações compensou. Veja o comentário desse leitor explicando porquê preferiu a foto abaixo:

repassa uma interação harmônica entre os ambientes. uma idéia de movimento e de utilização efetiva do ambiente. o terceiro plano está mais como complemento não está tomando a atenção da ação (rio). é mostrado duas formas de navegar uma mais acessível e com mais adrenalina (caiac) e outro mais elegante e sussegado (barco a vela) o ambiente repassa também uma idéia de passeio no caso do barco a vela e de aventura no caso do caiac. agora o engraçado é que o rapaz do caiac tá aproveitando a sombra da árvore pra não se bronzear muito.

Trata-se de uma análise do quadro que vai desde às impressões iniciais até o questionamento da motivação pessoal de um dos personagens, denotando um considerável background em linguagem visual. Assim como esse leitor, muitos outros julgarão o design gráfico do Usabilidoido com o mesmo olho clínico, então preciso caprichar!

O problema desse exemplo é que fica parecendo que para aplicar o perfil de terceiridade, os usuários precisam ter conhecimento de linguagem visual. Este outro comentário prova que não:

Nao sei bem ao certo porque , afinal eu achei que todas me passaram sentimentos semelhantes com exeção dessa daqui debaixo que parece escura, mas essa aqui em especial me prendeu mais os olhos, talvez pelo sentimento de tranquilidade, talvez pelo sentimento de natureza e integração do homem como meio ... ah, sei lah gostei mais dessa .

Comparando os dois comentários, dá pra perceber uma diferença de abordagem que não tem só a ver com o nível de conhecimento de linguagem visual, tem a ver com os estilos cognitivos dos participantes.

O primeiro vai do geral ao particular, analisando cada parte separadamente, uma característica marcante dos independente-de-campo (IC). O segundo prefere comparar as imagens umas com as outras para entender suas características, denotando a tal da dependência-de-campo (DC). É interessante observar como as peças do quebra cabeça vão se encaixando e as teorias vão se confirmando.

Apesar de termos a participação de um DC, a maioria dos participantes denota serem mais IC. Isso implica, por exemplo, em oferecer uma hierarquia de navegação mais aprofundada e com menos opções em cada nível. Infelizmente, o Movable Type ainda não está otimizado para hierarquias de mais de dois níveis, mas vou tentar umas experiências, de repente combinando com a folcsonomia existente.

Note que essa implicação já foge ao escopo do design gráfico, objetivo inicial do perfil semiótico. Estou começando a pensar que o perfil semiótico pode ser útil já na arquitetura da informação de um website, muito antes do design gráfico. Se levarmos em conta que a interação também pode ser emocional, isso faz o maior sentido.

Voltando aos usuários, apesar de compartilharem a abordagem analítica, o interesse varia. Dá até pra perceber um certo padrão entre as duas pinturas mais votadas. Os usuários que escolheram o quadro "Banks of the Seine" dão mais importância aos índices (em verde), já os que escolheram o "Fort Samson, Grandcamp" comentam primeiro os ícones (em amarelo). Como desvantagem da abordagem analítica, os símbolos são pouco citados em ambos (em azul).

Explicando melhor o gráfico, tomemos como exemplo a primeira fileira, que representa o primeiro comentário lá do começo do post. Primeiro o autor repara que existe grande harmonia entre os ambientes que compõem a imagem. Isso é a constatação de um ícone, pois essa harmonia é análoga à harmonia de uma cena parecida com a do quadro. Quando ele fala em movimento, está apenas supondo que os objetos da foto estejam se movimentando, pois a imagem é estática. Se essa impressão de movimento leva a prever uma situação de movimento, então temos um índice. Também são índices as emoções citadas, pois são inferências baseadas na reação que a imagem provoca no observador. Já na última menção, ele se refere ao conceito de "aventura" que a pessoa no caiaque simboliza. Opa, já deu pra ver que a relação entre este signo e a imagem é arbitrária (aventura é um conceito abstrato), então se trata de um símbolo.

Se você está se perguntando para quê tudo isso, veja como essa classificação pode ser útil no design de interfaces. Nesse caso, ela está servindo para perceber padrões de preferências cognitivas. A personalidade de uma pessoa pode definir se ela dá mais atenção para ícones, índices ou símbolos. Por exemplo, se as personas tivessem participado da pesquisa, acho que Pedro Marcusse teria escolhido a figura da esquerda e Ricardo Saknussem, a da direita, ambos seguindo o padrão de análise da maioria.

O resultado do perfil de terceiridade corrobora que predominam os dois tipos de personalidade das personas: INTJ e ISTJ. Poucos leitores participaram da pesquisa, ou seja, a maioria não quiz se expor, característica de Introverted. Uma parte valorizou mais os ícones, ou seja, prioriza fatos observáveis (Sensitive), enquanto outra valorizou os índices, que tratam de efeitos possíveis (iNtuitive). A maioria dos usuários usou a abordagem analítica através de critérios bem definidos (Thinking). Quanto às polaridades Judging-Perceiving não posso inferir nada com esse resultado, mas a outra fase do perfil indica que a maioria dos leitores são planejadores organizados (Judging).

Já que houve correspondência entre as preferências cognitivas dessa etapa e as personas criadas, pretendo usar as personas para estar constantemente avaliando as idéias que forem surgindo enquanto faço o design gráfico deste blog. Algo como "será que o Ricardo vai gostar disso? E o Pedro?" Dessa forma, elas servirão como uma síntese de todo esse conhecimentos abstrato levantado pelo perfil sobre as preferências perceptuais, emocionais e cognitivas do público-alvo. Veremos no que vai dar.

Fred van Amstel ([email protected]), 29.08.2005

Veja os coment?rios neste endere?o:
http://www.usabilidoido.com.br/resultado_do_perfil_semiotico_iii.html