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Triangulando métodos de pesquisa com UXFrameworks

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Triangulando métodos de pesquisa com UXFrameworks

Na minha aula sobre como desenvolver metodologias de design, eu disse que metodologia não é um procedimento, mas sim um estudo crítico de métodos baseados em cinco componentes: visão de mundo, base teórica, experiência prática, formalização do conhecimento e atitude ética. Após esta aula, senti falta de mais um componente: a leitura de situação. Esse critério é bem importante, pois justifica a criação ou adaptação de metodologias para cada situação de projeto.

Depois de realizar alguns exercícios de criação de metodologias para pesquisas de experiências com o UXCards, notei que os estudantes estavam tendo dificuldade para escolher métodos coerentes com a filosofia e valores do projeto. Então, criei uma outra ferramenta de metadesign chamada UXFrameworks, para ser utilizado junto com o UXCards. O objetivo das duas ferramentas é promover a diversidade metodológica e a liberdade metaprojetual.

O UXFrameworks nada mais é do que um esquema para a criação de frameworks de UX, que podem ser utilizados, dentre outras, para a seleção articulada de métodos de pesquisa. Para demonstrar sua finalidade, mostro um exemplo de um framework que não foi construído com o UXFrameworks, o UX Method Flow Chart de Ben Leduc-Mills. Como pode-se ver, a estrutura de árvore de decisão ou fluxograma é ótima para quem está começando, mas logo coloca o praticante dentro de uma caixa bem restritiva, pois não permite desenvolvimentos posteriores, nuances e adaptações.

UXFlowchart 2 2

O UXFrameworks não é um framework. Ele é uma ferramenta pra criar diversos frameworks. Ele utiliza a estrutura do plano cartesiano e seus quadrantes para classificar métodos de acordo com os critérios associados aos seis componentes de uma metodologia. Cada componente dá origem a um eixo, enquanto que cada critério define um dos seus extremos. O cruzamento dos eixos pode ajudar na triangulação metodológica ou qualquer outro tipo de triangulação necessária para um projeto.

A seguir mostrarei como usei o UXFrameworks nas minha aulas sobre triangulação metodológica. Primeiramente, apresentarei os critérios correspondentes a cada componente metodológico, bem como os planos de triangulação baseados nos seus cruzamentos. Ao final, mostrarei como a triangulação se aplica a um projeto de experiências. Os exemplos utilizaram o UXCards impresso, mas é possível também realizar os mesmos exercícios com o UXCards digital no Miro.

Visão de mundo: da metódica à caótica

A visão de mundo refere-se à maneira como a metodologia representa o mundo. Quando se parte do princípio de que o mundo é previsível e ordenado, os métodos de pesquisa escolhidos serão metódicos tal como o mundo, enquanto que, quando se parte do contrário, ou seja, que tudo tende ao caos, então os métodos escolhidos serão caóticos também, assim como o mundo.

Os métodos metódicos são aqueles que possuem requisitos bem especificados, etapas bem definidas e resultados esperados. Esses métodos se baseiam em conhecimentos formalizado através de variáveis, heurísticas, algoritmos e códigos. A execução do método é tranquila, pois segue um roteiro conhecido. Os dados coletados são organizados, relacionados e interpretados com muito esmero para não gerar inferências incorretas.

Em contraste, os métodos caóticos não possuem requisitos, etapas, e resultados bem definidos. Tais métodos deixam propositadamente uma série de lacunas abertas para descobertas previsivelmente imprevisíveis. A descrição do método é vaga e no máximo inclui alguns princípios genéricos que não especificam como fazer, mas sim por que fazer algo. O processo caótico é cheio de percalços, improvisos e descobertas. Os resultados dos métodos caóticos costumam ser surpreendentes e desafiadores.

Perguntas metódicas:

  • O que precisamos fazer?

  • Como fazer isso?

  • Quais são os detalhes que estamos esquecendo?

Perguntas caóticas:

  • Devemos mesmo fazer isso?

  • Há outra maneira de fazer isso?

  • Quais são as perguntas que ainda não fizemos?

Atitude ética: da problematizadora à solucionadora

A atitude ética diz respeito à maneira ao tipo de transformação que se considera necessária para o projeto: identificar e definir problemas do mundo ou criar e implementar soluções no mundo. A primeira atitude é imanente e busca adentrar no mundo, enquanto que a segunda é transcendente e busca colocar algo novo no mundo. Os métodos de pesquisa buscam realizar o princípio ético da necessidade.

O método problematizador parte do princípio de que a realidade está em crise e precisa ser transformada. O olhar crítico é fundamental para o método problematizador, pois permite enxergar problemas que ainda não foram identificados pelos demais atores envolvidos com o projeto. A habilidade de análise também é importante, pois permite definir problemas a partir de suas raízes causais e históricas. Eventualmente, os problemas definidos por tais métodos se tornam tão complexos que parecem insolúveis.

Independentemente de haverem problemas identificados ou definidos, o método solucionador visa criar alguma coisa que leve a realidade voltar a ser o que era antes. A criatividade é fundamental para o método solucionador, pois permite inventar novas maneiras de fazer velhas coisas. A habilidade de síntese também é importante, pois permite criar soluções a partir de ideias aparentemente desconexas. Eventualmente, as soluções criadas por tais métodos resolvem problemas diferentes daqueles que foram inicialmente definidos, incluindo também a possibilidade de não resolver problema algum.

Perguntas problematizadoras:

  • Quem tem interesse nisso?

  • Quais são as origens disso?

  • Para onde vamos desse jeito?

Perguntas solucionadoras:

  • Que materiais podem ser usados?

  • O que podemos fazer?

  • E se fizermos assim?

Triangulando visão de mundo com atitude ética

Essa triangulação ajuda a realizar o fundamento existencial da pesquisa: a presença de pesquisadores no mundo e com o mundo. Ela ajuda a costurar métodos que nos posicionam politicamente em relação ao que encontramos em nossos projetos de pesquisa.

Triangulacao1 uxcards

Base teórica: do qualitativo ao quantitativo

Existem inúmeras bases teóricas para a pesquisa de experiências, porém, podemos classificá-las em um continuum epistemológico que vai do qualitativo até o quantitativo. As bases quantitativas vêm das Ciências Naturais (Engenharia, Física, Matemática, etc), enquanto que as bases qualitativas vêm das Ciências Humanas (Antropologia, Sociologia, Comunicação Social, Psicologia, etc). Os métodos de pesquisa buscam validar as bases teóricas através de evidências de origem empírica.

Métodos qualitativos são aqueles que buscam entender um fenômeno específico em profundidade. O qualitativo trabalha com descrições, comparações e interpretações da realidade, incluindo seus aspectos subjetivos. A intenção é aprofundar-se progressivamente no fenômeno, descobrindo sua lógica interna. O nível de profundidade desejado é mais importante do que o número de fenômenos estudados.

Já os métodos quantitativos são aqueles que buscam medir a intensidade, frequência ou duração de um fenômeno em uma determinada realidade. A medição depende da definição de variáveis consistentes. Uma vez definida, é possível estimar a amostra necessária para obter a representatividade estatística do todo, ou seja, quantas vezes a variável precisa ser medida para que seus resultados possam ser extrapolados com confiança. O quantitativo busca desenvolver abstrações, regras e outras generalizações capazes de lidar com uma grande quantidade de fenômenos. Há um distanciamento metodológico entre pesquisadores e pesquisados para evitar vieses.

Perguntas quantitativas:

  • Quantos por cento das pessoas fazem isso?

  • Com que frequência as pessoas fazem isso?

  • Quanto tempo as pessoas passam fazendo isso?

Perguntas qualitativas:

  • Porque as pessoas fazem isso?

  • Como as pessoas fazem isso?

  • Qual o significado de fazer isso?

Leitura de situação: da atitudinal à comportamental

Uma boa metodologia deve ser sensível à situação de cada projeto. A leitura de situação refere-se ao tipo de experiência estudada. Se a experiência é individual, pessoal, ou subjetiva, então trata-se de uma situação atitudinal. Já se a experiência é coletiva, impessoal e objetiva, estamos diante de uma situação comportamental. Os métodos de pesquisa visam a interpretação da situação.

O método atitudinal visa explicar uma determinada atitude pessoal ou coletiva em um determinado contexto. São levados em consideração as opiniões, reflexões éticas, sentimentos e outros fenômenos subjetivos que constituem a atitude. O objetivo do método atitudinal é explicar os motivos por trás da atitude. Parte-se do princípio de que todas as ações humanas seguem a uma atitude mais ampla, de ordem pessoal, social ou cultural.

O método comportamental ignora os aspectos subjetivos e suas explicações, concentrando-se no comportamento objetivo observável, rastreável e modificável. Apenas as variáveis que podem ser capturadas através de dados consistentes são levadas em consideração. Não importa tanto os motivos de cada ação se as ações são parecidas entre si. O objetivo do método comportamental é gerar um modelo abstrato que generaliza o comportamento padrão estudado, ou seja, um modelo que prevê o que as pessoas costumeiramente fazem quando estão diante de um contexto definido.

Perguntas atitudinais:

  • Porque você fez isso?

  • O que você acha disso?

  • Como você aprendeu a fazer isso?

Perguntas comportamentais:

  • Quem faz o quê?

  • Onde as pessoas fazem?

  • Quanto tempo demora?

  • O que é mais comum?

Triangulando base teórica com leitura de situação

Essa triangulação ajuda escolher e relacionar métodos que enquadram a realidade tanto a partir de uma base teórica quanto a partir de uma base empírica. Essa triangulação foi originalmente concebida por Christian Rohrer do Nielsen Norman Group

Triangulacao2 uxcards

Formalização do conhecimento: do descritivo ao prescritivo

O conhecimento humano está nas coisas humanas, mas não está só nelas. A maior parte do conhecimento humano ainda não está articulado, explicado, enfim, formalizado. A formalização do conhecimento pode se dar através da escrita ou qualquer outro tipo de arte. Porém, é possível dividir o tipo de formalização pela sua diferença para com a realidade. Se o conhecimento trata de algo que já existe, então o método de pesquisa é descritivo. Se trata de algo que ainda não existe e que deve existir, então, o método é prescritivo.

O método descritivo visa descrever a realidade como ela é, da maneira mais precisa possível. A descrição se atém aos fatos mais objetivos que puderam ser capturados pelos dados. Para evitar que hajam distorções na descrição dos fatos, evita-se fazer suposições e previsões sobre a realidade, deixando a percepção aberta para fatos inesperados. Um recurso muito utilizado para dar sentido aos diferentes fatos descritos é a construção de histórias típicas que resumem a realidade estudada.

Já o método prescritivo, ele visa prescrever a realidade como ela deveria ser, da maneira mais detalhada possível. A prescrição é igualmente objetiva, porém, ela se baseia em suposições, generalizações e cálculos sobre uma realidade relativamente previsível. A prescrição costuma tomar a forma de diretrizes, recomendações, lista de requisitos, delineamento de projetos, regras, Leis e outras.

Perguntas descritivas:

  • O que é feito?

  • Como é feito isso?

  • Quais são os resultados?

Perguntas prescritivas:

  • O que devemos fazer?

  • Como devemos fazer?

  • Quem deve fazer?

Experiência prática: da distanciada à participativa

O conhecimento humano não se acumula apenas através da formalização. Ele se acumula também em relações informais desenvolvidas através de experiências práticas recorrentes. Quando os pesquisadores participam das experiências práticas, os métodos de pesquisa são participativos. Caso isso não seja desejável, então os métodos são distanciados.

No método distanciado, o pesquisador se mantém distante do objeto de pesquisa, tentando evitar ao máximo interferir no fenômeno. A postura ideal do pesquisador distanciado é conhecida popularmente como uma "mosca na parede", que observa sem ser notada. Os métodos distanciados advertem que, se a presença do pesquisador for notada, o fenômeno ali manifesto já não será mais o mesmo e a validade do estudo ficará comprometida. A atenção distanciada busca capturar o máximo de elementos da realidade, para só depois analisar após a observação.

No espectro oposto, os métodos participativos buscam inserir o pesquisador nas atividades dos pesquisados como se este fosse um integrante regular. A postura ideal do pesquisador é de um novato que chegou recentemente à comunidade e precisa aprender como fazer parte. Na medida em que o pesquisador participa das atividades dos pesquisados, vai abrindo seus interesses de pesquisa para debate gradualmente, a tal ponto que os próprios pesquisados passam a participar do planejamento da pesquisa. A atenção do pesquisador é, portanto, direcionada pelos pesquisados para o que eles julgam relevante.

Perguntas distanciadas:

  • O que se faz?

  • Onde se faz?

  • Quando se faz?

Perguntas participativas:

  • Quem faz o que?

  • O que posso fazer?

  • O que devo fazer?

Triangulando formalização do conhecimento com experiência prática

Essa triangulação é útil para articular diferentes maneiras de conhecer com diferentes fontes de conhecimento. Ela ajuda a definir a epistemologia por trás da metodologia do projeto.

Triangulacao3 uxcards

Aplicando o UXFramework a um projeto

Depois de pedir que os estudantes classificassem os métodos utilizando os critérios acima, pedi que construíssem uma metodologia de pesquisa para um cliente fictício, um milionário que desejava empreender no mercado de experiências. A pesquisa proposta deveria revelar o suporte material da experiência a ser comercializada. O cliente não tinha ainda definido o que seria desenvolvido e queria ajuda de designers para isso. Havia apenas a definição vaga de uma filosofia da empresa, que os designers deveriam seguir na escolha metodológica. Então, o primeiro passo foi definir os critérios relevantes para a filosofia da empresa (retirada aleatoriamente da coleção de cartão postal Philographics).

Triangulacao filosofia criterios

Uma vez definido esses critérios, ficou muito mais fácil montar uma metodologia coerente. Note no exemplo abaixo, elaborado por meus estudantes, que a metodologia de pesquisa de experiências segue a filosofia do estoicismo para produzir o valor da assistência humanitária. A entrega final da pesquisa são cenários em que o interesse individual pela assistência pode ser estimulado.

Triangulacao uxcards resultado2

O UXCards tem se mostrado não só uma ferramenta metodológica de grande flexibilidade, mas também uma ferramenta ontológica que permite libertar-se do metodologismo caótico. Já o UXFrameworks foi além disso e permitiu a criação de vários frameworks para triangulação metodológica, efetivamente elevando o nível de designers a metadesigners. Futuramente, pretendo usar o UXFrameworks para outros tipos de triangulação de pesquisa.


Autor

Frederick van Amstel - Quem? / Contato - 03/05/2022

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Citação

VAN AMSTEL, Frederick M.C. Triangulando métodos de pesquisa com UXFrameworks. Blog Usabilidoido, 2022. Acessado em . Disponível em: http://www.usabilidoido.com.br/triangulando_metodos_de_pesquisa_com_uxframeworks.html

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