Rumo à Quarta Ordem de Design

A expansão da atuação de designers que observamos no Design Prospectivo pode ser compreendida através da teoria das Quatro Ordens de Design proposta por Richard Buchanan.

Este pesquisador identificou já nos anos 1990, um padrão de expansão da atuação de designers. Nas décadas anteriores, as práticas estavam muito focadas no signo da informação. No Design Gráfico, preocupava-se muito com a polissemia da imagem, já no Design de Produtos havia uma virada para a semântica da forma do produto. Não havia ainda uma preocupação com o que está além do produto ou da peça gráfica. Buchanan chamou essa fase de Primeira Ordem de Design.

A partir dos anos 1990, entretanto, consolidou-se um design mais preocupado com o uso, com o produto ou a comunicação em processo. Surgiram diversas teorias, como o Design Emocional e o Design de Experiências. Pode-se resumir a Segunda Ordem de Design como uma preocupação crescente com a experiência.

Porém, Buchanan não apenas documentou e distinguiu essas duas ordens, ele também prospectou duas outras ordens: uma focada em ações e outra focada em sistemas e pensamentos. Na época, a possibilidade de projetar para apoiar a ação humana era algo pouco considerado. Não haviam, praticamente, nem cursos e nem profissionais especialistas em Design de Interação e Design de Serviços, algo hoje que já é realidade, inclusive no Brasil. Porém, a possibilidade de projetar para sistemas era ainda mais difícil de compreender e de aplicar.

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A Quarta Ordem de Design é justamente o foco do Design Prospectivo da UTFPR. Nós queremos projetar para sistemas sociotécnicos, porém, não acreditamos que eles sejam completamente compreendidos pelo pensamento sistêmico que Buchanan define como característico da Quarta Ordem. Por isso, nós preferimos definir uma unidade mais simples para a Quarta Ordem: as relações que compõe o sistema sociotécnico e as demais entidades complexas da vida humana.

Conhecer e dominar as Quarto Ordens de Design não é um conhecimento puramente teórico. É um conhecimento que ajuda a expandir o objeto de design quando ele se encontra travado por alguma contradição ou conflito.

Como exemplo, compartilho o caso do Renault Experience 2.0 (2017-2018), que tive a oportunidade de desenvolver quando trabalhava na Hotmilk, a aceleradora de startups da PUCPR. O programa Renault Experience envolvia estudantes das engenharias com a criação de novas ideias para melhorar a experiência dos motoristas e passageiros, em uma espécie de concurso de ideias. Nós redesenhamos esse programa para que ele tivesse não só foco no carro, mas também na mobilidade enquanto um serviço que uma cidade produz para um cidadão. Tratou-se, então, de uma expansão da Segunda Ordem (experiência) para a Terceira Ordem (interação).

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Os participantes do programa criaram muitas startups de serviços baseadas em aplicativos, porém, estes eram apenas avatares ou meios para que esse serviço digital pudesse ser tocado e acessado. Hoje, o Renault Experience é um dos programas mais interessantes de inovação aberta e articulação com universidades no mercado brasileiro, apesar de ter reduzido sua atuação durante a pandemia. Porém, não houve ainda a expansão para a Quarta Ordem, ainda muito rara no âmbito corporativo.

A Quarta Ordem se torna mais visível quando consideramos projetos que resolveram enfrentar a pandemia COVID-19. Nosso grupo de pesquisadores da UTFPR realizou um estudo em 2020 sobre as infraestruturas quebradas pela pandemia, includindo o sistema de mobilidade urbana. Nós identificamos um elemento nocivo na quebra da infraestrutura que denominamos de fumaça digital, inspirados na maneira como alguns indígenas brasileiros vêem a atividade do branco garimpeiro que deixa a floresta doente com mercúrio e outros contaminantes. Similarmente, as notícias falsas deixam as infraestruturas que dependem da compreensão mútua entre as pessoas doente.

Neste mesmo ano, realizamos outro estudo sobre as soluções de design que estavam sendo propostas para essas quebras de infraestruturas. Nós mapeamos todas as soluções e problemas que pudemos encontrar em websites e portais como Designboom e outros. Depois disso, começamos a classificar os problemas e soluções nas Ordens de Design, para saber quais eram as ordens que atraíam mais atenção dos praticantes e dos pesquisadores da área.

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Na Primeira Ordem, encontramos poucos projetos focados na informação sobre higiene e uso adequado de máscaras. Encontramos muito mais ventiladores que têm peças mais fáceis de trocar ou que não quebram, ou que têm maior usabilidade, ou que não tem riscos ergonômicos. Tratam-se de soluções de Segunda Ordem, ou seja, focadas na experiência de uso.

Designers queriam melhorar a experiência de produtos que ajudavam no combate à pandemia, e por outro lado, melhorar a informação oferecida para as pessoas sob os cuidados sanitários. Estas soluções são importantíssimas, porém em face do primeiro estudo sobre quebras de infraestruturas, percebemos que os problemas relevantes se concentravam mais na Terceira e na Quarta Ordens.

Produzimos diversos mapas de análise dos problemas e soluções encontrados.

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Nós observamos que, na maior parte dos casos, as soluções de design eram propostas por empresas que queriam aproveitar a oportunidade de negócio gerada pela pandemia. Isso não é necessariamente anti-ético, porém, começamos a refletir: será que empresas só podem empreender na Primeira e na Segunda Ordem? Será que empresas não poderiam também oferecer serviços e quiçá novas relações em sistemas sociotécnicos?

Nosso grupo de pesquisa em Design Prospectivo começou a nutrir a hipótese de que se isso já não acontecia, era esperado que fosse acontecer na medida em que tenhamos crises cada vez maiores do que a pandemia COVID-19.

Acreditamos que o problema é que muitas empresas e profissionais focam em uma prospecção individual, que depende da capacidade daquele indivíduo ou daquela organização para vislumbrar as possibilidades disponíveis. Então, muitas vezes a possibilidade está ali, mas devido à visão encurtada da realidade, os atores não as percebem.

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Quando diversos atores se juntam para prospectar em conjunto, eles enxergam um pouco mais daquilo que pode ser feito ao redor. A prática de pensar além da caixa do possível é o que chamamos de prospecção coletiva. Na Quarta Ordem focada em relações, é preciso prospecções coletivas que envolvam vários atores do sistema sociotécnico.

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Os atores podem ser indivíduos, empresas, organizações do Terceiro Setor, órgãos governamentais e outros que queiram confrontar suas perspectivas de futuro, e através desse confronto, explorar o espaço de possibilidades.

Quanto mais diferentes forem as posições dos atores, mais qualidades diferentes serão consideradas sobre as relações. Por exemplo, quando um ator do governo está prospectando, ele olhar para a governabilidade. Já um ator do mercado, olha para a lucratividade. O necessário para projetar a transição do sistema sociotécnico é encontrar qualidades relacionais que os diversos atores se preocupem e queiram contribuir mutuamente, como por exemplo, a sustentabilidade.

Este é o segundo texto derivado da transcrição de uma palestra realizada pelo meu ex-aluno Felipe Araujo de Miranda Gomes, a quem sou muito grato. Ajuda para transcrever outras palestras e aulas são sempre bem vindas!

Fred van Amstel ([email protected]), 02.02.2022

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