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O prodígio das interfaces

Mario Lima Cavalcanti

Ele é programador, webmaster do site Comunicação e estudioso da tecnologia Macromedia Flash e de seu uso para a construção de interfaces mais interativas. Frederick van Amstel acredita que as interfaces hoje em dia tem a mesma cara e que, com a ajuda do Flash, seriam mais dinâmicas. Conversei com ele, que deu um panorama do que pensa sobre os atuais layouts dos jornais online. Acompanhe a entrevista abaixo.

Comunique-se - Você acredita que as interfaces de softwares estão caindo na mesmice. Por quê?

Frederick - Porque desde que foi criada a metáfora do desktop (área de trabalho, pastas, ícones, janelas, botões) há décadas, pouca coisa mudou nas interfaces de softwares.

Comunique-se - Desde quando você usa o Flash e estuda a dobradinha Flash/interface?

Frederick - Desde o final de 2001. Mas só amadoramente. Comecei a trabalhar pra valer há um ano. Eu comecei a mexer com o Flash pegando a Trial da versão 5 no final de 2001 e fiquei impressionado com a facilidade. Já tinha tentado criar interfaces com a linguagem de programação Delphi, mas me frustrei com a quantidade de código necessário. Eu não queria explorar o mundo obscuro da programação, só queria comunicar. Por isso eu considero o Flash tão importante para a história da interface.

Comunique-se - É, você sempre defendeu a idéia de que o Flash é uma forte ferramenta para construção de interfaces.

Frederick - Um website não é uma ferramenta, um software. Ele é uma mensagem, um esforço de comunicação. Então, ele pode aproveitar a interface para transmitir a sua mensagem. É aquele negócio do "Meio é a Mensagem", de MacLuhan. Com o Flash, é possível criar interfaces mais adaptadas a essa finalidade, escapando dos padrões. Veja o exemplo (aqui) do site inglês do carro Phaeton da Wolksvagen. O internauta navega por uma "galáxia" em que cada estrela é um texto. A extrapolação do hipertexto não prejudica a facilidade de uso e acrescenta uma experiência marcante.

Comunique-se - Um artigo publicado recentemente por Mark Glaser no Online Journalism Review alerta que muitos prêmios jornalísticos acabam pecando por premiar sites que utilizam bem a tecnologia Flash, em vez de fazerem uma avaliação jornalística, ou seja, deixando de lado a parte editorial da coisa. O que você pensa sobre atitudes como essas dos prêmios?

Frederick – O Flash começou a ser usado para fins publicitários em 99. Assim como ter presença na Web no seu começo, usar Flash é sinônimo de atualidade, inovação. Porém, usar Flash só por ser Flash não acrescenta conteúdo. Logo surgiram críticas avassaladoras a esse tipo de prática e as agências de Internet tornaram-se mais reservadas em relação ao Flash. Assim será com os jornais online que o utilizam para transmitir informação.

Comunique-se - Para você o Flash está sendo bem utilizado por veículos noticiosos? Recursos como o infográfico são bem desenvolvidos?

Frederick - Isso está ligado ao tipo de profissional que faz o infográfico. Um jornalista pode contar e interpretar fatos melhor do que um designer, graças à sua formação. A cultura de Jornalismo Visual é relativamente nova lá fora, há poucos jornalistas com capacidade de bolar um infográfico interativo. Então sobra pros designers, que priorizam o visual. No Brasil, essa cultura de jornalismo visual é praticamente inexistente. Ainda vamos ter que esperar muito tempo para termos coisas como os animados da BBC (aqui) ou os do El Mundo (aqui).

Comunique-se - E quanto aos layouts e recursos em geral? Como você os vê em sites de notícias hoje em dia?

Frederick - Bem, no momento há ainda uma influência muito grande da linguagem visual do meio impresso. Ainda não se desenvolveu um consenso nesse sentido que se adapte ao meio Web. Colunas, blocos de texto grandes, ausência de hipertexto e efeito biblioteca (excesso de informação) ainda é muito comum nos sites de notícias. Tudo isso não combina com a Web. É preciso aproveitar seus recursos e entender como agem os seus leitores. Uma home page não é usada igual a uma folha impressa: num jornal com um movimento rápido do olho é possível ter uma visão geral dos assuntos que a página trata. Já no navegador só é possível ver uma pequena área de cada vez. A Web ainda é muito nova sim, mas acredito que essa inadaptação é fruto de conservadorismo tanto dos leitores quanto dos jornalistas. Basta comparar veículos voltados para o público geek, como a Wired, com jornais online populares, como o Último Segundo, para entender o que estou falando. Acho que os veículos online desperdiçam muito a possibilidade de interatividade com o leitor. Acho muito mais valioso que se desloquem jornalistas das redações para gerenciar comunidades virtuais (fóruns de discussão e afins) e bolar novas formas de interação com o leitor.

Comunique-se - Sobre o site Comunicação, onde você atua como webmaster. O que os leitores podem encontrar lá?

Frederick - O Comunicação é um projeto de comunidade virtual da Universidade Federal do Paraná. Ele tem uma equipe de reportagem que cobre os principais assuntos que interessam o público acadêmico. Os comentários dos leitores aparecem logo abaixo das matérias e as enquetes são bastante discutidas. O lugar já está virando ponto de referência na discussão dos problemas da Universidade.

Comunique-se - Você falou sobre algumas idéias inovadoras do Comunicação como o "Leia++". O que exatamente é o "Leia++"?

Frederick - É um software que estou desenvolvendo para agilizar a leitura dinâmica. Por enquanto ele identifica nomes próprios e declarações nas notícias e os realça. Fizemos algumas pesquisas com nossos leitores e descobrimos que durante o "scanning", a leitura dinâmica que os internautas fazem, algumas partes do texto chamam mais a atenção. O "Leia++" é totalmente automático, o jornalista que redige a notícia não precisa se preocupar em fazer nenhum tipo de marcação. Mas ainda está em fase de testes. Tem alguns bugs que precisam ser concertados.

Comunique-se - Você acha que o jornalista que trabalha com online precisa ter noção de tecnologias e recursos como HTML, Flash e Photoshop?

Frederick - Acho que ele precisa ter noção do que dá pra fazer com as tecnologias disponíveis, porém não precisa dominar seu funcionamento. Hoje, a utilização eficiente dessas tecnologias demanda um profissional especializado nisso. Porém, à medida que os softwares estão ficando automatizados, diminui o esforço para sua operação. Então, o jornalista deve se concentrar nos seus assuntos, que já dão bastante trabalho para um profissional sozinho: cativar fontes, colher fatos, opinar etc. A operação de software fica por conta de outro. É como na edição para TV: existem técnicos e jornalistas. Alguns jornalistas assumem a edição da matéria, porém isso não é necessário para concluir o seu trabalho.



12/8/2003

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